Aquele livro do André Sant’anna

06/02/2009

São duas e oito da manhã e no quarto de hotel eu termino de ler seus textos, de conferir suas linhas, de responder suas linhas e abro esta janela na qual começo a despejar palavras que no fundo substituem as lágrimas que não podem cair. Ao meu lado um menino ronca baixinho, um desvio de septo, nada grave, deve ser a causa do barulho. Neste quarto de hotel onde eu queria chorar não se ouvem gemidos, somente teclas pequenas de três centímetros quadrados sendo pressionadas sob a luz fraca da tela que ilumina tudo. No quarto de hotel eu penso em quando seria bom ter um abraço, em quando era bom quando sonhávamos, em quando era bom quando sonhava contigo que tinha tempo pra sonhar comigo e em mim. De mim saem as vontades que movem estas teclas que escrevem estas palavras. Mas outras poderiam sair e não vieram. Não vieram porque somente estas poderiam nascer. O mundo das palavras também é cruel com os mais fracos. Na madrugada sem sono deste quarto de hotel que despertará em breve cuspindo para fora da cama todos os homens bem casados, as mulheres bem casadas, os garotos já homens feitos que brigarão pelas mulheres e pelos dólares, escrevo as palavras mais fortes que sobreviveram à tormenta. Se o telefone tocasse eu choraria e deixaria que você ouvisse. Deixaria que você ouvisse meu choro baixinho e meu pedido de ajuda. Deixaria que você me sentisse chorando só e reclamando da solidão, do desamparo, da solidão, do desamparo, da solidão. No quarto de hotel iluminado porcamente pela tela branca com esta prancha onde escrevo, nenhuma parte da luz me faz companhia. Eu estou só e somente assim escrevo este texto. Este é um texto fluído sobre solidão, vindo da solidão. Este é um texto, só. As lágrimas que não caem viram palavras e no desespero de não parar de digitar lembro dos textos do André Sant’anna que eu te lia quando você tinha tempo na cama pra ouvir os textos rápidos que o André Sant’anna escrevia quando estava sentado na cama escrevendo palavras que originalmente foram lágrimas que não puderam sair dos olhos dele. Mas tudo que eu queria era alguém que me amasse a ponto de acompanhar minha solidão e fazê-la deixar de existir. Alguém que tivesse a disposição de receber meu telefonema na madrugada fria de qualquer cidade e dizer, Vamos lá, pode começar. Eu queria alguém do meu lado, que não roncasse, que na madrugada fria dissesse palavras bonitas como, Estou aqui. No quarto de hotel que mora dentro da madrugada fria, me sinto só e escrevo como se nunca mais fosse ter alguém por perto pra ler os textos do André Sant’anna. Sinto que a lágrima começa a se formar, mas desiste. Estou sozinho demais até pra ficar triste, estou trancado dentro daquela parte de mim que desaprendeu a viver por medo da tristeza, é um esconderijo de solidão que não permite avanços nem partidas. Queria sua presença ao meu lado, mas outras coisas te faltam antes disto. Mas um dia você irá chegar. Um dia haverá o tempo, haverá o gosto, haverá a força, haverá a gana, haverá a disposição, haverá a coragem, haverá o carinho, haverá a paciência e a paz. Um dia haverá. Mas agora é noite aqui dentro.

Palavras-chave: André Sant’anna, hotel, lágrima, solidão, telefonema

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.