ELES!

03/02/2009

Eles atravessavam correndo todas as portas, fugiam como podiam em todas as direções, gritavam muito. As mulheres esqueciam os pudores e nuas como estavam antes do acontecimento desesperavam-se por qualquer porta, por qualquer fresta, por qualquer vôo possível para longe daqui. As crianças seguravam-se em outros pais, choravam por outros brinquedos e corriam como humanos fazem, independente da idade que tem.
As carnes ficavam pelo caminho, rasgadas nas farpas, raspadas nos outros, mutiladas pelos muitos pés que pisoteavam os que caíam pelo percurso. As vozes de trás impulsionavam os corpos da frente e o banho de suor e sangue impregnava a cena de um cheiro tão rico de odores que aqui nem parecia aquele local estéril de antes.
Três ou quatro loucos prendiam-se nos lustres e nas bordas das janelas para observar a cena, rir e berrar do alto tal qual generais em campo de batalha “Por ali, por aquele flanco, vamos pegá-los à retaguarda”, “Não desistam, homens, ainda temos um quinto de esperança, um quinto”. Quem os via não sabia porque diziam aquilo. O fato é que, após o início do caos, apenas os loucos conservavam algum ordenamento. Quem sabe agora estavam em casa.
Eu ainda estava ali, no canto, amarrado pela coleira e sentado, como meu dono me deixara antes de se atirar avenida adentro junto com os demais. Incomodava-me com a gritaria e com umas pulgas que há semanas me infestavam. Latia quando se aproximavam demais. E tinha pena dos homens. Tadinhos. Dependiam da rotina e não sabiam morrer.

Palavras-chave: fim do mundo, solidão, tristeza

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