01/10/2009
De frente um para o outro, fingiam que não eram ou que não foram e conservavam a distância segura da solidão cotidiana.
E não havia nada mais vazio do que aquela ausência pois não era fruto de um terreno intocado e nunca habitado, mas de uma antiga morada, agora terra devastada, seca até a última horta e limpa com as mãos, por dentro, pra que não sobrasse nada.
Entre os dois não havia mais bons-dias ou como-vai-você e desapareceram os últimos pedidos de desculpa depois da demora da resposta na última tentativa de um. Ou seria do outro? O pior a se considerar é que até há pouco eram todo o recheio daquelas vidas de poucas possibilidades. Até o dia em que o tempo se secou em atritos tão ásperos que as peles indefesas não puderam se defender. E, em vez de se protegerem, fugiram. Cada qual para seu casulo.
Naquele dia estavam ali, de frente um para o outro, no metrô cheio, sem opções. No balanço dos trilhos e dos empurrões, quase se tocaram, quase se falaram. Por mais de uma vez as bocas se abriram e o que saiu foi um gesticular de lábios em um mudo pedido de desculpas.
Ela saltou na Sé, indo pro sul. Em silêncios e soluços. Ele chegou no Paraíso, subiu as escadas, seguiu em frente. Sacou o isqueiro na subida dos passos rápidos de escada. Acendeu o cigarro com aroma de cravos. Quis chorar. Quis chorar. Quis chorar.

Publicado por doktor lakra em 4 04UTC janeiro 04UTC 2011 às 23:44 r r
belo.
Publicado por Liege em 30 30UTC abril 30UTC 2011 às 13:25 r r
Que belo Pedro! Gostei muito, me fez pensar porque as vezes as palavras ficam “pressas” e em todo esse insuportável turbilhão de sensações que gira em torno disto.
Adorei!
beijo
Publicado por Liege em 30 30UTC abril 30UTC 2011 às 13:32 r r
perdão, escrevi errado, é “presas” e não “pressas” …e um “s” a mais faz muita diferença rsrs…me desculpe, na “pressa” me equivoquei!