Pele seca. Pele seca e dor nas pernas. Foi tudo o que sobrou daquela fria noite de junho naquela cidade protegida no meio das montanhas. Pele seca e dor nas pernas. E lágrimas.
A verdade é que, bem maior do que as sobras foram as faltas. Se algo realmente preencheu aquele vazio foi apenas o ruído da garganta arranhando no oco. E, no mais, pra tudo isto já inventaram a palavra solidão.
A garota esperou a dança que a consagraria no papel principal. Literalmente, ela seria a noiva da quadrilha. Vestido branco, pintas nas bochechas, enfeites no cabelo. Só faltou o noivo, desistidos todos os garotos. E não importa o porquê. Uma noiva impúbere desprezada pelos prometidos, um coração de mulher rejeitado pelas possibilidades de amor: nada disto precisa de explicação ou adjetivos.
Uma primavera e outros potes de creme resolveriam a pele seca. O descanso do final de semana curaria as perninhas inchadas e doloridas pela dança. As lágrimas secariam no carnaval. O que mais duraria daquela noite não seriam as presenças, mas o vazio. Aquela dor inexplicável, eterna, que nenhuma poesia pode abrigar e que é maior do que o mundo, que é a única coisa possível de ser sentida e que se imagina impossível de se escapar ou superar.
A garota seguiu. As vezes, quando o tempo fica seco, quando é noite, quando o vento inventa novamente aquele frio, regressa a salpicada daqueles nãos infinitos e ela tenta dormir pra parar de doer.

Publicado por hoje não sou mais alguém em 18 18UTC março 18UTC 2010 às 18:33 r r
bem a minha cara…