06/01/2009
Nua, ela estava parada na minha frente.
Era uma garotinha ainda, tinha acabado de aprender a amarrar os cadarços e, por isso, estava feliz, penso. Chegou com um sorriso que logo desapareceu.
Minha barba branca suada e meu casaco sujo de muitos dias e noites a assustavam. Meus olhos avermelhados de tanto sono também.
Não sei quem tinha mais medo de quem. Só sei que quando bati à porta ela saiu assim.
Eu não estava preparado pra tanto. Ela não estava pronta pra tão pouco. Logo, ficamos em silêncio,apenas nos olhando.
Há tempos não via alguém assim, nua, pura, virgem de alma. Há tempos ela não via rugas como as minhas.Cavadas na sujeira, encrostadas. Cabelos cacheados pegados de lama e decorados com folhas secas. Éramos bárbaros um ao outro.
Fazia um tempo misto, desses mormaços que nos derretem depois de qualquer caminhada, mas não queimam a pele exposta.
Perguntei por comida ou agasalho. Ela foi chamar a mãe.
Bruta, a senhora disse ‘não’ e a porta se fechou.
A pequena grudou-se no vidro da janela e me viu ir embora olhando pra trás.
Alguns chamarão de violência o que aconteceu. Pobreza, descaso, desigualdade.
Eu acho que foi apenas um contato humano.
Desses que não valem livros de história ou capas de jornal.
Palavras-chave: amor, contatos humanos, mendigo, mormaço, pobreza
