Formulário

Aquele buraco incomodara desde o primeiro dia na rua nova. Ficava um tanto longe, mas era de passagem obrigatória. Onde quer que fosse, avançaria por aquela via e cruzaria, inevitavelmente, com o dito buraco no meio da rua, agora já empilhado de lixo, sobras de chuva, restos de comida e qualquer porcalheria que ocorresse à natureza levar ou a alguém arremeter.

Sem mais alternativas, escreveu à prefeitura. Dois dias passados, novidades: “Prezado munícipe, poderia descrever melhor as origens de tal problema? Gisele Vieira, assistente administrativa da secretaria de obras.” Estranhou a agilidade da resposta visto que pensava aguardar meses por alguma novidade, por isto não hesitou em agradecer, com seu usual senso de humor: “Cara Gisele, obrigado pela prestativa ajuda. Não sei das origens do buraco pois ele se mudou pra cá antes de mim, Paulo Santana.” Sem saber se a funcionária compreenderia as palavras como ironia ou simpatia, temeu que a boa vontade acabasse. Pouco depois, o retorno: “Prezado munícipe, deslocaremos uma equipe ao local. Caso o buraco volte a se mudar, avise-nos com antecedência”. Surpreso com o tom da comunicação oficial, persistiu na linguagem: “Cara Assistente Administrativa da Secretaria de Obras, mais uma vez surpreendeu-me a agilidade e gentileza da notificação. Prometo cumprir com meus deveres de munícipe e alertar quanto a qualquer atividade suspeita do referido buraco. O Departamento de Obras atende vinte e quatro horas por dia ou reporto uma eventual fuga somente em horário comercial?”

Oito dias depois, nada de respostas. Teria a moça se ofendido com a formalidade do início do texto? Ou já dava o assunto por concluído, dedicando agora sua atenção à problemas novos de uma cidade cheia deles? Dezessete dias depois, quando já não contava com nenhum retorno, novo contato. “Prezado munícipe (ok, não lhe chamo assim se não me tratar pelo nome do meu cargo, combinados?), algo em seu formulário inicial foi incorretamente preenchido. Nossa equipe alegou não haver nenhum buraco na altura do número 1200 da Avenida Guimarães Rosa. Mudou-se sem prévio aviso?”. Feliz com o retorno daquela que já se tornara uma espécie de colega de todos os dias, respondeu, já menos preocupado com o buraco do que com a conversa: “Bom dia, Gisele, realmente cometi um erro no informe. Trata-se do número 120, não 1200 como informara anteriormente. Perdão pela falha. Uma dúvida: por que a demora na resposta? Veio pessoalmente averiguar? Se o fizer, sentiria-me honrado em oferecer-lhe um café após o expediente” Enviada a mensagem, começou a tremer. Foi exagerado na oferta? Entenderia ela como uma cantada barata? Afastaria-se?

Nada disto. Pouco depois, novamente uma resposta espirituosa. E entre idas e voltas, a princípio oficiais e pragmáticas, logo depois apenas pelo prazer do contato, descobriram um e outro que ela recentemente perdera a mãe de quem cuidava há alguns anos, ficando órfã e sozinha em casa, que ele sofria de uma enxaqueca terrível que impossibilitava o sono em diversas noites, que ela formara-se em pedagogia mas não exercia a profissão, que ele fora casado e tinha um filho vivendo com a ex-mulher, que ela chorou na última noite por um amor antigo, agora impossível de tornar-se verdade, que ele estava preocupado com a crise mundial porque tinha ações e não sabia o que fazer, que ela poderia ser promovida para outros cargos, mas, com o secretário de obras se candidatando a deputado estadual, isto ficaria mais difícil, que ele se embebedava até cair quando a solidão batia mais forte, que ela estava tentada a ir para outro setor, mas temia o excesso de corrupção daquelas bandas, que ele tivera um pequeno caso homossexual nos idos tempos do exército, que ela permanecera virgem até os vinte e um, que ele subia e descia os sete andares do prédio pela escada para exercitar-se, que o cereal matinal que ela consumia no café não tinha adição de açúcar, que a casa de campo na qual ele pela primeira vez dormira numa rede ficara para a ex-mulher no processo de separação em troca do apartamento na cidade, que ela escovava os dentes com o creme que aliviava a dor, que ele chorava no cinema, que ela chorava na novela, que ele corria, que ela dançava, que estava cansado, que também.

O buraco foi resolvido numa segunda-feira, primeiro de março, as nove e trinta e cinco da manhã pela equipe comandada pelo senhor Agnaldo de Jesus Silva que registrou no formulário 14733 das Ordens de Serviço da Secretaria de Obras as possíveis causas do problema bem como  a solução que dera-se por concluída após o nivelamento da manta asfáltica com o plano geral do restante da rua. Sem mais, firmou a via de papel carbonado, encaminhou o original à Srta. Gisele Aparecida Vieira, Assistente Administrativa da Secretaria de Obras do Município, arquivou o bloqueto onde se encontrava a segunda via e deixou a terceira com o Encarregado de ações de campo. Caso encerrado.

Uma resposta para este post.

  1. Palavras lindas… apaixonantemente reais… reais e verdadeiras… verdades sinceras de momentos cotidianos…. buracos ou alagamentos são comuns, embora não normais… Encontrar as palavras certas e o encaixe perfeito é um presente divino…
    Adoro ler vc…
    beijos

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