Era inconsequente. Sempre. Belíssima em cada um de seus gestos sedutores, não media ocasiões ou contextos para seus fazeres desde que fossem sinceros. Era quase pura naquela orgia de tantos prazeres primitivos gozados com a inocência de uma criança descobrindo o próprio corpo e, incoerentemente, os alheios. Se tinha um defeito era o de chorar demais em qualquer parte do filme. Se tinha uma dúvida era quanto ao próximo passo, aquele futuro mais imediato e decisivo. Não media nada além do urgente depois.
Um dia tropeçou na caixa que esquecera no meio do caminho das nossas vidas e de lá rolaram as muitas dívidas não pagas, os choros pra acontecer (e eram muitos), as danças do acasalamento, as promessas de reveillon, as palavras do último momento que sempre dissera ao se afastar de alguém pra sempre, aquela coleção de poesias em outra língua, em outro tempo, em outra vida.
Recolheu os caquinhos de quem fora, era e seria, colou com cuspe, montou de novo e seguiu.
Hoje tem duzentos e trinta e nove anos, onze meses e doze dias de uma vida de flores, motéis baratos, e-mails não lidos e uma marca de xixi no chão da escolinha, lembrança de quando a professora disse “não”.

Publicado por Carol em 26 26UTC março 26UTC 2010 às 14:32 r r
Muito a minha cara… Mesmo. No doubts!
E dá até uma tristeza, sabe? Onde será que deixei minha caixinha?
Publicado por Day em 27 27UTC março 27UTC 2010 às 14:46 r r
o por que do título?
Publicado por pssilva em 29 29UTC março 29UTC 2010 às 09:18 r r
Por causa do filme.