Tão

Não desliga. Preciso te falar isto ao menos desta vez. Sabe aquela noite que nos sentamos ao lado no cinema? Quis segurar sua mão e dizer o quanto éramos… acho que especiais. Mas, sabe, isto não seria uma declaração de amor qualquer, nem seria declaração de nada, somente confissão. Éramos especiais naquela época. Acho que por conta de nossos gostos, das nossas muitas faces, dos nossos gestos. Como? Repete que o som tá baixo. Especiais pra quem? Acho que um para o outro. Talvez pra quem estivesse por perto. Você nunca sentiu isto? Poxa, é triste pensar assim. Algo tão forte. E somente eu senti. Por que não disse antes? Porque não deu tempo. Andava cansado. Andava pouco. Mal pude contar agora. Sei lá, a timidez.

Como? O que espero de você? Acho que o direito de ser especial. Não tá bom? Calma, não é cobrança. Respira. Não, não quero mudar nada. Só te dizer que queria ter dormido no seu colo nos últimos anos. Sei que é muita coisa. Não chora. Não muda nada. O que? Ao fundo? É aquela música bonita da moça que diz que “quer dois filhos, um barco à velas e respostas” e que ouvimos na casa da minha mãe. Não, minha mãe nunca soube, pára com isto. Você era especial só pra mim. Só pra dentro.

Eu sei disto, não precisa repetir… ok, tá bom, juro que não toco mais neste assunto… combinado. Eu só tentei ficar aqui, só tentei ficar sozinho, sabe? Ficar bem. Mas é tão difícil, tão…

Eu sei que parece pretensão demais. Imagina, nunca quis ser seu dono, nem agora nem naquela época. É egoísta, mas é que dói tanto, sabe?  A idéia de que você é livre pra fazer o que quiser (inclusive pra não me ver mais) é angustiante. E se um dia você escolher ir embora pra sempre? É tão díficil.

Pois é, tentei te ligar outras vezes. Foi. Tento sempre. Sua mãe me disse que as horas que você passa em casa tem sido casa vez mais curtas, mais vazias. Que você tem dormido mal, murmurado pesadelos. Sabe, me preocupo, poxa. Só isto. No mais, foi você quem me ensinou a… tá bom… também não toco mais neste assunto. O “tema das coisas que você me ensinou”. Assunto esgotado. O problema é que foram tantas coisas, tantas…

Não precisa, estou bem com a grana daqui. Ok, ligo se precisar, juro. Mas o que tem faltado não é isto, tem faltado aquela palavra mágica, como a do Ali-babá que abria portas. As fechaduras não tem mais aceitado palavras geniais. Mas por que você pergunta isto? Realmente importa? Porque odeio que sintam pena de mim. Odeio isto, esta coisa disfarçada de amor. Eu não acabei. Eu tô só começando. E o que temos pra diante não pode ser pequeno. Ou talvez não exista um deus.

Quando você mandou? Nunca recebi. Vinha perfumada? Será que extraviou? Pára com isto! Nunca! Nunca mentiria! Ok, eu sei. Mas você sabe que aquela voz do cara que cantava dizendo que o amanhã não existe sempre me emocionou. Por isto sou tão imediato.

Também não mais. Cansei daqueles livros que me entristeciam. Agora eu me choro nas minhas próprias palavras. Minhas e suas, se você quiser. Tá bom, eu te mando, mando sim.

Ontem passou uma moça ao meu lado que estava exatamente com aquele cheiro. Sim, o que você trouxe da viagem. Ela perfumou todo o saguão do prédio. Mas talvez só pra mim aquele cheiro fizesse sentido. Sempre gostei de pequenos prazeres e lembrar aquilo que você significava ao meu nariz é das menores e maiores coisas que posso ter. Sua lembrança será sempre tão, tão…

8 comentário para este post.

  1. Publicado por Carol em 2 02UTC abril 02UTC 2010 às 19:50 r r

    Vc é foda…Tão, tão!
    Sdd!

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  2. realmente intenso…

    Responder

  3. contido…

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  4. Publicado por Alice em 11 11UTC maio 11UTC 2010 às 17:55 r r

    Estava aqui congelando de frio, me deparo com esse texto! Esperava que fosse bom, por ter sido escrito por você, mas confesso que não esperava tanto… parabéns moço! Aqueceu minha tarde fria…
    Que saudades de vocês!

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  5. Publicado por Liz em 18 18UTC junho 18UTC 2010 às 18:51 r r

    Pedro ficarei lendo seu trabalho, você é muito bom e com, a pratica faz o mestre, continue sempre escrevendo. bjos. Liz

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  6. Publicado por Ana Letícia em 2 02UTC janeiro 02UTC 2011 às 19:07 r r

    Irresistível não comentar… é perturbador quando nos sentimos acuados pela sensação de não se conseguir denominar a intensidade porque se percebe que é unilateral. Quem já não sentiu que tanto pareceu ser nada? Adorei como tu conseguiu esmiuçar cada partezinha dessa memória de paixão. Parabéns.

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  7. Publicado por C. em 8 08UTC maio 08UTC 2011 às 21:22 r r

    você me passou isso como uma infecção…é brilhante.

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