Nana

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“Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”
(Caio Fernando Abreu – “Aqueles dois”)

A menina dos olhos cor de mel nunca soube exatamente porque tantas cabeças grandes se avolumavam em torno da sua caminha a repetir daquela maneira suave: “Nana, nenê, nana”. Somente sentia sono com a sonoridade de cada repetição e dormia. No futuro seria aquela mulher completa, linda e assustadora de tanta beleza; teria os mesmos olhos cor de mel de uma sedução profunda que já pequena comovia muitos corações, ganharia longas pernas que a alçariam a altura média de todos os homens, fazendo com que nunca precisasse olhar para cima ao se dirigir a nenhum deles, seu cabelo cresceria bem mais, tornando-se um véu perfeito de muitos fios entrelaçados e incríveis. E , principalmente, viajaria por todos os cantos do planeta, tendo segurança para ser uma mulher do mundo inteiro, sem nunca pertencer a ninguém ou a canto algum. Mas agora era somente a linda criança de olhos cor de mel que dormia quando ouvia a confusão de “n” em “nana, nenê, nana”.

Sua mãe buscou um nome de bom som. A ela lhe caía bem os que se ouvissem como canções. Nomeou-a Marta Monteiro. Parecia algo suave e constante. Com uma boa oscilação. Marta completou os vinte anos tendo já feito mais estragos aos corações que muitas outras mulheres mais velhas. Não sabia porque, não era intencional, mas os garotos se apaixonavam por ela ao primeiro olhar. Talvez houvesse algo em seu cheiro natural, algum perfume pré-histórico, embutido em sua pele e que estimulava interesses animalescos e irresistíveis. Quando leu Cem Anos de Solidão, viu-se reproduzida na pequena Remédios Buendía, a menina que arrastava todos os homens da cidade atrás de si, muitos morrendo na busca impossível de uma criança que somente queria saber de chupar os dedos e vestir-se com poucas roupas pelo calor. E os homens realmente apaixonavam-se pelas menores coisas em Marta. Sua maneira de sorrir com o canto da boca, a ânsia de provocar-lhe um sorriso para saber a cor das borrachas do aparelho em seus dentes. O mais irresistível eram as bochechas. Eram quase como indicadores do clima. Ficavam vermelhas se mudava um pouco a temperatura, se o ar se tornava mais seco, se aproximava-se uma tempestade, se o tempo estivesse muito poluído. De maneira que, a qualquer hora do dia, podia maquiar-se naturalmente com aqueles pomos vermelhos que sugavam todos os olhares.

Ao primeiro despontar do seu peitinho púbere, sentiu-se mulher. Aprendeu logo que conseguiria muitas coisas unindo todo o carisma que lhe era natural com o feitiço que os olhos cor de mel poderiam provocar, especialmente se abertos no ângulo correto, correspondendo à boca semicerrada e tudo se movendo numa velocidade sincronizada que nenhum ser humano poderia resistir. Não era sedução barata, nem vulgar, longe disto. Aquela menina quase mulher sequer sabia que poderia existir qualquer maldade em atos como aquele. Somente seguia, e tudo parecia mágico ao seu redor. Houve um dia que beijou um garoto, no rosto, de leve. O pobre nunca mais se recuperou. Dizem que morreu mendigando pelas ruas, que abandonou tudo que fosse seu passado por não saber mais onde poderia por os pés, já que havia flutuado e desacostumara-se com o viver sólido dos normais.

Ademais, a pequena adquiriu uma grande facilidade de comunicação. Saltava aos olhos, ou aos ouvidos, o quão rapidamente, apenas de escutar algumas vezes, adquiria um sotaque quase nativo e podia caminhar pelas ruas de qualquer país como se ali tivesse nascido. De princípio, o hábito de viajar começou com um presente que seu irmão, que trabalhava no aeroporto e tinha algumas facilidades, lhe deu de aniversário. Uma passagem para qualquer lugar do mundo. Todos se assustaram quando, de tantos pontos de turismo fáceis e próximos, ou talvez famosos e atraentes, ela decidiu ir para a Argélia. Estudara francês um ano antes e depois de quatorze horas no país poucos sabiam que era estrangeira, sempre pensando que era apenas uma garota de uma província distante. Depois, passou a manter suas viagens por conta própria, tornando-as quase autônomas. Com os artigos de artesanato que trouxe do norte da África fez um pequeno comércio de boca em boca e conseguiu o dinheiro que lhe bastava para ir de ônibus a Buenos Aires, de onde pôde voltar cheia de jaquetas de couro, artigos similares e muita lábia para comerciá-los. Com o rendimento das roupas portenhas o lucro foi maior, permitindo que isto, somado ao dinheiro de algumas aulas de francês e espanhol, a levasse agora aos Estados Unidos. Lá foi muito útil seu sobretudo de muitos bolsos, onde meteu todos os perfumes, maquiagens, máquinas fotográficas, dispositivos eletrônicos e quinquilharias que conseguiu. Assim, em pouco mais de cinco anos, já tinha viajado pelo Nilo, pelo Tâmisa, pelo Prata, pelo Amazonas, pelo Mississipi, pelo Ganges, pelo Reno, pelo Rio Amarelo, pelo Volga e pelo Danúbio. Escalara ou estivera aos pés do Kilimanjaro, do Vesuvio, do Aconcagua, do Mackinley, do Everest, do Fuji, do Kenya e do Ararat, já acumulava moedas e cédulas de dólares, euros, libras esterlina, ienes, guaranis, pesos, sucres, novos sóis, bolivianos, dinares, nairas, xelins, randes, rublos, rupias e francos. Óbvio que, para isto, precisou aprender ou ter grandes noções de inglês, francês, português, alemão, espanhol, japonês, mandarim, híndi, russo, bengalês, malaio, italiano, persa, urdi, javanês, vietnamita, polonês, berber, curdo e hebraico. Trouxe para casa, para ler no original, Camões, Dante, Allende, Cervantes, Thomas Mann, Karl Marx, Fernando Pessoa, Camus, Balzac, Baudelaire, Boccacio, Breton, Cortázar, Jack Kerouac, Saramago, Shakespeare, Tolstoi, Zola, Niestzsche, Neruda e Dickens. Em certos dias tinha de ligar para a recepção e perguntar em qual país estava, pois acordava sem saber que idioma praticar, que costumes seguir, que roupas vestir, que pratos comer ou com qual dinheiro pagar. Falando espanhol, tinha dificuldade de diferenciar se seguia em Honduras, se estava em El Salvador, Cuba, México, Colômbia, Paraguai, Peru, Uruguai ou Equador. Sentia falta de casa às vezes. Nestes dias tomava alguma coisa pra lembrar-se do lar e seguia em frente, até poder voltar.

Um dia conheceu um rapaz simples, muito distante da vida que ela escolhera pra si. Em verdade, o pobre jovem não tinha nada de animador. Não tinha olhos cor de mel, tampouco bochechas mutantes, não tinha passaporte ou falava qualquer outro idioma, não tinha uma boa saúde, de maneira que ficava mais trancafiado em seu apartamento do que se expunha ao sol. Quando o fazia, caminhava lentamente, empastava-se de protetor solar, rastejava. Débil assim, falava pouco, mas todas as palavras pareciam especiais a Marta, que sempre ouvira coisas demais sendo ditas e nunca de alguém que valorizasse tanto cada palavra, como se fosse um achado ou um tesouro. Em verdade, o rapaz das palavras a tratava muito bem. Mais do que isto, a amava em gestos tão miúdos, mas ao mesmo tempo tão inéditos, que soavam confissões de amor eterno nos dias cinzentos de qualquer parte do mundo. O conhecera um dia, na terra natal, e depois passaram a trocar cartas pelo planeta. Cartões postais que exibiam a Estátua da Liberdade, o Ritz de Paris, o Castelo de Praga, o Portal de Brandemburgo, o Partenon, o Big Ben, o Templo de Kukulcán, a Grande Muralha, o Coliseu e o Taj Mahal. Os papéis de carta e os envelopes eram de todas as cores e os selos contavam a história mundial, os esportes prediletos, a fauna, os artistas plásticos, as datas religiosas e as grandes festas de cada cantão pelo qual ela passara. Com o tempo as palavras começaram a se tornar costume, logo hábito, logo necessidade e logo naturais, como a cor da água ou o cheiro das flores. Não poderiam simplesmente não estar ali porque em verdade era como se tivessem existido desde o princípio das coisas e fossem durar até o limite dos tempos.

Passaram a ser fisicamente mais presentes nas vidas um do outro. Cafés, chás, bebidas exóticas, vinhos refinados, pães caseiros, suores, caminhadas, cheiros doces, sabores amargos e alcoólicos. Não sabiam bem qual nome dariam aquele sentimento. Talvez fosse uma forma rarefeita de amor. Talvez um jeito prematuro de saudade. Embora mais parecesse uma maneira comovente de carinho. Começaram a freqüentar os mesmos ambientes. Ela se sentia claustrofóbica no mundo do rapaz. Ele se sentia desamparado na amplidão da garota. Com o tempo passaram a mesclar suas atividades, realizando cada qual seus próprios atos e interesses, mesmo estando em habitat hostil ou desconhecido. Ela recheou a biblioteca do menino das palavras com livros que ele mesmo não poderia ler, mas que a faziam lembrar-se de cada um dos pontos visitados fosse pelo idioma ou pelas imagens reproduzidas. Ele passou a conhecer mais o mundo lá de fora, todo o imprevisível caótico da cidade, cada amargura possível em um plano não concretizado de realizar algo simples no trânsito da metrópole.

Para ela, a percepção dele começou como uma saudade da mediocridade. Não recordava dos temas existenciais de suas conversas, das paisagens exóticas que visitavam ou dos filmes e músicas vividos. Em geral, registrava o que poucos poderiam dizer inolvidável: o choque de sabores que ficava em sua boca quando a menta misturava-se ao café e ele dizia “ontem à noite…”. O cheiro desagradável que saía da geladeira pouco conservada da casa dele quando a abria para pegar o queijo que despejaria sobre o macarrão esfumaçante completando com um “quase tudo que eu sempre fiz…” A aspereza do tapete alto e firme, feito de plásticos e resinas, sobre o qual ela repousava os pés sempre antes de tocar a campainha e ouvir “eu sabia que uma hora seria”. No final, todas as palavras cruzavam-se em sua memória com algum registro mais palpável e, em pouco tempo, todas as vezes que ouvia a palavra “enquanto”, lembrava-se da blusa listrada de lã que ele usara no quinto dia que se viram. Sempre que sorvia algo gelado de morango, sua mente insistia em repetir “vincos, vincos, vincos”. Palavra bonita que ele pronunciara certa ocasião numa sorveteria. Todas as sopas ganharam sabor de adjetivos pátrios depois do dia em que discutiram sobre como qualificar uma pessoa nascida na Guiana Francesa. E não havia momento no qual lesse ou ouvisse a palavra “inverossímil” que não sentisse um leve sabor de maisena na boca.

Curiosamente, ele a projetava não no passado das orações ditas e dos toques experimentados, mas sim no futuro ou no hipotético da distância, fosse no tempo ou no espaço. Assim, durante toda viagem que ela fazia pela América, ele a vislumbrava comendo milhos e abacates, feijões e farofas, chipas e assados, sopas com ovos boiando, cocidos, molhos à base de peixe e tudo mais que conhecesse da culinária daqueles países. À mera menção da palavra Egito, ele a via banhada por um sol raro, tentando fotografar-se sob uma luz imprópria, de óculos escuros e um sorriso levemente falso num rosto inicialmente desidratado e já habitado por pequenas rugas, mais escuras que o tom da pele normal. Era raro que a visse nua em suas visagens. Exceto quando a pensava na Europa. Curiosamente, no frio italiano ou francês era que ele a imaginava mais desprotegida. Isto porque, em seu processo de gravação das coisas, a elegância européia sempre se associava a uma banheira repleta de espuma e água quente, com ela imersa. Estranhamente, aquela poderosa máquina de sedução que era Marta Monteiro somente se despia em seus pensamentos quando um véu de alva e densa espuma podia fazer-lhe as vezes de veste, revestindo-a aos olhares e pensamentos alheios.

A beleza dela, claro, continuava acompanhando todos seus gestos sedutores e homens de todas as partes lutavam e morriam de ciúmes pelo controle de seus carinhos. As vezes ela cedia, por uns tempos se machucava, ganhava traumas imensos, tentava de novo, brincava de amores com uns e outros, divertia-se por prazer ou aconchegava-se em peitos estranhos, de pelos desconhecidos e músculos desnecessários. Aqui ou acolá um casamento se desfazia por ela, ou alguém, outra vez mais, dava a vida para tê-la por perto. Mas, por mais que tudo isto se passasse, somente o rapaz das palavras permanecia, como uma tinta de base, uma luz homogênea, um acorde de fundo, algo que sempre estava lá, mesmo quando distante e sempre se fazia sentir, como um aroma fraco, mesmo nos momentos de maior efusão de cheiros. O rapaz não ligava quando ela demorava a responder ou a viajar para revê-lo. Apenas queria que, quando ela fizesse, o fosse de corpo inteiro. Corpo inteiro era somente uma forma de expressão, visto que o contato corporal, físico mesmo, quase não o tinham vivido até agora. Um dia, em casa, tocaram os corpos. Ela sentiu a temperatura da pele dele. Ele, como todos os outros homens do mundo, pela primeira vez olhou Medusa no fundo dos olhos e petrificou-se. Toda a mística que a tornava magicamente sedutora avançou por sobre o braço esquálido do rapaz que, independente de quanto controle pudesse ter sobre si mesmo, rebaixou-se a um hipnotizado, derrotado pela beleza etérea da garota. Inconscientemente, ao também sentir-se envolta pelo mesmo efeito sobrenatural, ela começou a sussurrar bem baixinho, como palavras secretas para a varinha de condão: “Nana, nenê, nana”. Fato feito, suas vidas nunca mais regressariam aquele ponto. Viajaram juntos.

3 comentário para este post.

  1. Publicado por day em 26 26UTC agosto 26UTC 2010 às 15:25 r r

    a tempos não te lia

    Responder

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