Vestido de noiva

Decidira casar-se no verão por conta da imensa quantidade de más recordações que a estação trazia. Foi nesta estação que aos cinco anos experimentou pela primeira vez o contato com a morte, presenciando o atropelamento de seu cãozinho de estimação. Em um verão qualquer desistiu de seu primeiro amor de infância ao descobri-lo em mudança para outra cidade. Nos dias quentes e chuvosos de anos atrás sofrera seu primeiro grande constrangimento público com aquele sangramento inesperado durante uma viagem escolar. Dezembro era o mês dos natais miseráveis de muitos desejos e poucos presentes. Janeiro era a pura lembrança da solidão, da ausência dos colegas habituais, cada qual recolhido em suas próprias férias particulares. Fevereiro trazia em seu bojo toda a frustração de carnavais mal vividos e amores inconclusos. Mas neste ano ela inverteria a rotina. Seu casamento logo no início do verão seria o marco de uma nova fase, de uma rotação de sentidos que atribuiria outros significados àquela época de mau agouro. Chegava a hora.

 

Nos meses anteriores preparou meticulosamente todos os detalhes, atribuindo um simbolismo especial a cada um dos componentes. O vestido leve remeteria ao futuro de serenidade e paz que construiria junto ao seu novo homem, um rapaz perfeito para os novos tempos: incolor, inodoro, insípido, uma massa a ser modelada com as mãos dos dias nascentes e de esperanças iniciadas naquela igreja simples e completa, símbolo da humildade bem sustentada com a qual visava rechear sua nova casa segura e bem ventilada, com um cão guardando a passagem e quadros primaveris enfeitando as paredes: perfeição.

 

Seu esforço centralizador, quase histérico, detalhista e, digamos, exagerado para ter sob seu controle todas as incógnitas capazes de influenciar naquele célebre momento fizeram-na ligeiramente doentia e egoísta. Listou todos os nomes dos amigos em ordem alfabética e brigou com todos os que numerologicamente exibiram-se como forças indesejáveis. Desconvidou-os fossem quem fossem, incluindo amigos de infância e contatos profissionais, ciente de que os reconquistaria após a boda. Escolheu atentamente o cardápio da festa, evitando pratos muito gordurosos que pudessem deixar recordações negativas nos relatos de seu evento. Reduziu à mínima adega o estoque de bebidas alcoólicas que motivassem ânimos exaltados e perigosos em sua comemoração exclusiva. Quanto ao noivo, proibiu o pobre moço de usar trajes com listras (porque já presenteara um ex-namorado com uma camisa do mesmo padrão), vermelhos (recebera uma blusa desta cor do mesmo ex), azuis (era a cor da coleira do primeiro cão, o atropelado) e cinzas (disseram-lhe que não seria conveniente naquele momento festivo). Limitou-o também a eleger as vestimentas confeccionadas por um grupo muito restrito de alfaiates, garantindo que nenhuma foto traria poses feias ou ângulos que desmerecem o Escolhido. Perdeu barriga, encolheu medidas, tratou a pele, importou maquiagens, aplicou novos cabelos, fez exercícios de respiração, dicção, pronúncia, oratória, aulas de dança, clareamento nos dentes, treinamentos de etiqueta. Economizou dinheiro, controlou o tempo vago, evitou contatos desagradáveis. Foram semanas preparativas de perfeição, disciplina e glória.

 

Chegou o dia apoteótico e, como uma guerreira consciente, foi. Todo o protocolo introdutório transcorreu como planejado: as entradas, as entregas, as canções, as lágrimas. Finalmente, no momento crucial, o religioso de preto fez-lhe a pergunta fatídica, aquela para a qual todos sempre aguardamos somente uma resposta, considerando como loucas, imprudentes ou impossíveis quaisquer outros desfechos. Ele já dissera “sim” e toda a multidão agora contemplava seus lábios esperando que se abrissem numa única sentença mágica. Naquele segundo entre a fórmula “seu legítimo esposo” e a resposta derradeira, mentalmente, numa velocidade na qual o pensamento move-se pela escuridão ao avançar mais ligeiro que a luz, ela fez uma retrospectiva de tudo que a trouxera até aquele altar: cada tombo, arranhão, deboche, ferida, queimadura, cicatriz, cada osso deslocado, unha trincada e dente reposto. Relembrou os amores vividos e os conformados, as dores causadas e absorvidas, as saudades eternas, os prejuízos, as comemorações fúteis, as vontades ceifadas, reviveu cada gozo contido e cada noite orgíaca, cada amante, cada tesão proibido e cada remédio tomado. Quase sorriu ao relembrar sua entrada na faculdade, a conquista do primeiro namorado, os sorrisos de seu pai, as carícias de sua mãe, os boa noite rotineiros, os ovos de páscoa, suas sandálias havaianas, os filmes dos Trapalhões vistos no cinema.

(…)

Passaram-se dois segundos antes dela esboçar uma primeira abertura labial ainda sem som. Uma tempestade de vida encharcando seu cérebro. A sua frente, um homem frágil, capítulo mal explicado e não terminado, à sua volta todos aqueles que compunham aquele concerto sem projeto que era sua vida na terra. Frente ao inventário daquela existência, olhou outra vez para o exíguo moço e não soube o que responder, hesitante naquele verão de dúvidas supremas.

3 comentário para este post.

  1. Publicado por doktor lakra em 4 04UTC janeiro 04UTC 2011 às 23:37 r r

    acabou de repente.

    bom, gostei.

    Responder

  2. Publicado por Val em 28 28UTC fevereiro 28UTC 2011 às 10:19 r r

    Estive por aqui e, em seguida, resolvi ter um Blog também. Ainda não sei que tipo de escritos cultivarei por lá. Por enquanto, postei dois fragmentos de carta-email que escrevi no ano passado. Entremeei as cartas de reticências-cortes… Publicar-se não é tarefa fácil, sobretudo quando resolvemos expor coisas que não foram idealizadas para a exposição. Confesso que tenho predileção por este tipo de escrito (que não foi idealizado para a exposição). Queria ter muitos escritos espontâneos, mas parei de escrever assim que, aos dezesseis, gastei o meu primeiro diário.
    Parabéns pelo blog. Obrigada pelo estímulo.
    Val.

    Responder

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