Meninos e meninas

Já tinha reparado nos olhos da menina, mas em pouco tempo notaria que cada parte de seu corpo tinha algo importante a lhe contar. A voz sussurrava um sotaque de silvos e desejos. Em verdade, lhe deixava excitado, fantasiando que promessas faria àquela boca estivessem sozinhos sobre uma cama. A boca chamava a atenção também pela forma. Grande, bem recheada. Quis beijá-la instantaneamente e, mesmo à distância, imaginava a textura daqueles lábios. As mãos dela detinham a mágica das palavras e, tal qual um prestidigitador, encantavam letras e símbolos, formando seqüências, carícias, verdades e ilusões letradas. A pele era de uma brancura alva, de manchas inexistentes ou invisíveis, todavia ainda não nascidas sobre o manto claro daquele corpo de menina mulher. E fazia apenas quarenta minutos que se conheciam.

A conversa começou ao acaso. Estavam na mesma prateleira, ele buscando Abreu, ela buscando Coralina. Suas mãos quase se tocaram em Bandeira e, do perdão inicial, chegaram ao café anexo onde tudo começou com um inventário dos últimos autores lidos, passou a uma coletânea dos melhores, avançou até aos textos de autoria própria e entrou em suas vidas pessoais.

A princípio ela estranhou a intimidade excessiva e precoce do rapaz: um farfalhar de palavras doces salpicadas ao léu sem maior necessidade, brecha ou deixa que as convocasse. Era o jeito dele de dar e pedir carinho, um tanto esquisito, mas pessoal. Incomodara-se também com outras coisas, mas atribuiu tudo à imaturidade da pouca experiência. Em verdade, ele era mais velho, mas aparentava não conhecer tanto o mundo quanto ela. Mas, dentro de todo aquele estranhamento, vinte e dois minutos depois ela percebeu que havia algo que a deixava em paz. E confusa, cedeu.

Ambos vestiam as piores roupas para aquela ocasião, ou talvez as melhores, porque com elas os fatos transcorreram. Seu vestido era um tanto velho, puído nas costuras. Mas era de estimação e a fazia bem usá-lo. Ganhara-o há pelo menos uma década, dos avós, e desde os dezesseis o levava como amuleto. Ele vestia uma calça jeans, gasta, mas também confortável que, vista de perto, tinha as barras roídas pelo arrastar do asfalto, os botões de pressão dos bolsos estourados e uma cor indefinida, embranquecida de tantas lavagens e amarelada de tantas repetições. Sua camiseta, amarela, sobrava nos ombros, disfarçava a barriga, mas destacava muito da sobriedade de seu rosto: homem feito em vestes de garoto. Ele não era bonito e sabia disto. Daí a vergonha inicial em conversar com aquela moça de densos cabelos escuros em fardos de mechas negras. Mesmo assim, conseguiu comovê-la com gestos e maneiras. O aconchego estava posto.

O diálogo intelectual, filosófico, começou a aproximar-se do mundo prático conforme a conversa avançava: falaram de partidos políticos, partidas de futebol, grupos de dança, artes marciais, cantores dos anos oitenta, filmes B, sexo, cães, enfermidades e manias. Ele revelava segredos (ela se assustava), ela falava abertamente de temas proibidos (ele se escondia), ele avançava sinais proibidos (ela se protegia), ela agredia com seu jeito pouco cortês (ele se encolhia), ela pedia desculpas pelos maus hábitos (ele acreditava), ela garantia que se tornaria mais dócil (ele tinha fé).
Duas horas e quinze minutos depois, cada um para sua casa, um par de telefones trocados, uns duzentos gramas de saudade e um adeus. À noite, em casa, sozinhos, ela ligou a TV e assistiu uma comédia romântica sobre um cara que se casa antes de conhecer a própria esposa. Ele viu um filme do Tarantino em DVD. Tinha uma mulher de amarelo e muito sangue. Gostou.

4 comentário para este post.

  1. Uma dos melhores textos sobre este assunto, obrigado por compartilhar.

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  2. Publicado por BIa... em 23 23UTC abril 23UTC 2011 às 20:53 r r

    Sem dúvida é de uma sensibilidade ímpar! Sem contar a atenção com os detalhes… Adorei o texto!

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  3. Publicado por Camila em 29 29UTC julho 29UTC 2011 às 23:28 r r

    Dificil é quando a gente se identifica com várias partes, especialmente com “o jeito pouco cortês” rs.

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