As 6h32 da manhã de sábado o telefone tocou três vezes antes da resposta. Do lado que chamava, uma voz feminina de mais de quarenta anos, fumante há décadas, seguramente ansiosa e aguda, estridente. Quase podia sentir o creme de lágrimas e batom que se interpunha entre a voz e o bocal do aparelho. Falou algo confuso, poucas palavras puderam claramente se distinguir, mas seguramente era um pedido de socorro combinado com desabafo. Tinha apanhado de novo.
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Desliguei o telefone, peguei o primeiro ônibus que apontava para o oeste e, enquanto acordava batendo a cabeça repetidas vezes no vidro vibrante da condução, tentava convencer-me de que realmente deveria estar fazendo aquilo. Por que eu? E por que suportava aquela condição? Não tínhamos relação alguma de parentesco ou vizinhança, somente uma amizade antiga, do tempo em que acreditávamos em revoluções e defendíamos nossa banda preferida com o radicalismo agressivo dos adolescentes. E tantas águas rolaram desde então. Eu já tinha me casado com outra mulher e não podia continuar respondendo pelos erros e acertos de antes, anteriores aos filhos e a minha separação. Não era mais o garoto que compunha rocks nas últimas páginas do caderno dez matérias. Esta senhora que me acordava também era outra pessoa. A menina que conheci nunca voltou daquela viagem à Alemanha, da qual seu corpo chegou transformado e sua mente borrada, turva, claramente mais conservadora. Foi esta a mulher que se casou com o rapaz que hoje a golpeara às cinco da manhã, pela segunda vez no mês, motivando sua chamada emergencial.
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Quando a conheci era uma jovem adorável e espontânea. Hoje percebo que já guardava em si aquele ar histérico que se libertaria com tanta ênfase depois dos trinta. Eu também era bastante diverso daquilo que sou hoje, seguramente um ser humano melhor em muitos aspectos. Na ânsia de sermos aceitos, não aceitávamos a morosidade das virtudes plenas, gostávamos dos fogos de artíficio das pequenas aparênciasg. E, assim, nos exibíamos. Desta maneira nos conhecemos. Eu compondo as letras, ela transformando-as em músicas. Passamos a conviver tanto que ninguém acreditava quando dizíamos que não éramos namorados ou que tampouco tínhamos um caso. Éramos mais amigos exilados do que amantes buscando qualquer segurança. E vivemos bons meses assim. O momento exato da inflexão em nossa relação é muito impreciso pra mim. Acredito que foi quando conheci minha ex-esposa e passamos a conviver menos. Mas ninguém se transforma sozinho. Mudamos.
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Um dia pedi para encontrá-la a sós. Queria contar sobre a mulher com a qual decidira casar-me. Disse o nome, como a conheci, falei sobre tudo que estava sentindo. Pouca ou nenhuma reação ela apresentou. Não que fosse dada a conter-se, ao contrário, exacerbava todas as opiniões que defendia. O que hoje posso supor do silêncio dos meses posteriores é que nascera da infelicidade pela ruptura da amizade ininterrupta, consequência natural da adoção de uma nova vida. Sinto que ela esperava que meu novo estilo de vida um dia se rompesse. Vendo que teria de esperar muito tempo por uma retomada daquela companhia adolescente de fidelidade irrestrita e contato perene, decidiu viajar. Arejar a mente em outros climas. Foi pra Alemanha.
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Era uma manhã de sábado no Brasil quando o telefone tocou com o aviso de que ela retornaria de Frankfurt. Recebi-a no aeroporto. Estava mais magra, o que acentuou as olheiras e os ossos de sua face, parecendo que envelhecera mais do que o natural do tempo cronológico. Mesmo assim conservava o charme de outrora, aliado agora a uma muito cuidadosa harmonia das vestes e acessórios. Mal tínhamos nos falado nos últimos quatro anos e sua ligação para que a buscasse no aeroporto soou-me um misto de pedidos de desculpas e renascimento. Tivemos intensas semanas após isto. Eu me casara e já estava divorciado. Neste meio tempo desenvolvi novos gostos. Apresentei-a para todos os filmes e restaurantes que valeram a pena no tempo em que esteve ausente, comentei sobre a situação política e cultural do país, levei-a nos pontos que me agradavam no tempo de casado. Ela era uma pessoa mais serena, e isto a tornou aberta a novos contatos, novas amizades. Mais ou menos por aí, ela conheceu um rapaz, já aqui no Brasil. E nos separamos outra vez.
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Nossa amizade era confusa, nunca se parecia com desejo ou paixão, mas também era diferente de algo fraternal. Eu acredito que sentíamos culpa um para com o outro. E deveríamos nos suportar (com todas as possibilidades que esta palavra permite) eternamente. Como um membro que nasce defeituoso, uma falha num dos órgãos dos sentidos, um filho débil. Cada vez que algo dava errado no mundo, corríamos para um ponto de encontro imaginário em nossas mentes e voltávamos a nos tocar. Foi assim que retomamos as conversas frequentes após a primeira hematoma. Seu namorado a empurrara de uma escada e nossas antenas nos avisaram de que um precisaria outra vez mais do outro.
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Para mim o convívio confundia-se com um ato de caridade e docilidade hospitalar. Talvez por sentir que eu também precisava de proteção no mundo, adotava-a como um esquema de segurança futura. Egoísta ao extremo, mas soava tão bem. Começo a questionar se todas as relações humanas não o são assim: fundos de investimentos emotivos cercados de protocolos e cobranças. Quando chegou da Europa ela parecia uma mulher bem menos próxima pra mim e, salvo as primeiras semanas de reconhecimento, não compartilhávamos o mesmo barco. Eu era um novo solteiro, buscando prazeres imediatos e nenhum compromisso. Ela voltava como a mulher estabelecida, em busca do homem de sua vida, pois o tempo urgia. Falava em casas e casais, lençóis e jogos de cozinha, sonhos bem menores do que os da garota que compunha versos com “crisântemos” e “avencas”.
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Seu quase-marido era calado, mas parecia uma pessoa agradável. O fato é que, nas horas de descontrole, a tratava com a violência urgente de quem tem pouco tempo para resolver os problemas, logo avança às últimas conseqüências antes das primeiras argumentações. Daí nos abraçávamos, suportávamos, e a vida prosseguia.
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Éramos os Morangos Mofados do século XXI. Aliás, um tempo no qual o mofo crescera tanto que alcançara a dimensão de tapete. Um imenso tapete cobrindo ruas, avenidas, faculdades, empresas, residências, bares, puteiros, padarias, fazendas, sinagogas, prisões. E a principal qualidade da sujeira não tocada, envelhecida, mofada, era a de dotar tudo o que abrangia de um desinteresse de dupla mão. Nada no fundo importava, e ninguém também se importava com você ou com o seu desinteresse pelo alheio. Como um pote vazio de margarina num aterro sanitário. Porque tudo tornara-se vago e apolítico, amoral, distante ou, aquela palavra estrangeira que melhor definia nossas vidas: fake. Nunca as coisas tinham sido tão teatrais à medida que ensaiadas, preparadas, tão espontâneas quanto um texto bem treinado na boca de um ator maduro. E esta era a vida de todos nós. Que não tínhamos nome e seguiríamos sem possuí-los. Nomes eram pessoais demais.
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Cheguei a um bar próximo da casa dela, já não chorava, apenas fumava e olhava para o vazio. Seus olhos que até então não desejavam nenhum foco, miraram os meus e todas as palavras que vieram na sequência lhe saíram num jorro de fúria e amargor perdido, como uma metralhadora na mão de uma criança: “Você acha que não sei porque está aqui. No fundo, você sempre me achou uma boba, alguém a se manter por perto por falta de coisa melhor, ou pela imensa capacidade de moldar-me às vontades dos outros. Nem lembro qual a úlltima vez que toquei violão. E pensar que, por quase uma década, só o fiz para dar harmonia aos seus poemas. Para ritmar suas composições. E agora aqui estamos nós. Quase velhos, flácidos, um pouco sonolentos, um pouco ébrios – ao menos eu – tentando dar sentido aos anos oitenta novamente. Mas os Oitenta não precisariam de sentido, não é verdade? Não foi uma década perdida? Se estávamos lá, se éramos adultos lá, também fomos perdidos naquela onda. Ou pior, a década foi perdida por nossa culpa. Acho que tudo que ocorreu no vinte anos posteriores foi uma construção sobre um prédio de estrutura frágil. Ou, como os prédios de Santos, torres de concreto sobre a areia, afundando cada vez mais. E como tudo que inclina tomba sobre outro corpo, aqui estamos nós. Eu fazendo outra vez papel de histérica, boba nos seus dizeres. Você fugindo da responsabilidade de ser algo pra mim. Será que você não foi o culpado pelos anos oitenta também?”
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Não podia invalidar aquelas palavras, nem contra argumentar. Havia algo de extremamente lógico, racional e ponderado naquelas frases. Ou, no fundo, ela só passava a usar meu idioma tantos anos depois. Sem perceber, invertemos os papéis e eu comecei a usar o dela. Somente nos abraçamos. E, pela primeira vez, eu quis ver aquela vida melhor.
