Tinha uns dez meses que ela morava aqui. E um dia resolveu ir embora por causa de um grito.
No princípio achei que seria moleza. Não estranhei a poeira sobre os livros, o chão pegajoso, as primeiras flores mortas no beiral da janela. Ignorei os espirros dos ácaros acumulados, comi todas as frutas mais maduras e esperei as demais chegarem ao ponto. Tomei toda a água mineral, os refrigerantes, os pacotes de suco em pó. Abri as últimas três garrafas de cerveja e não saí pra comprar mais. Daí passei a abrir tudo que pudesse tomar diluído no álcool de limpeza para me embebedar. Iogurte, molho de tomate, milho em conserva. Revirei por uns papéis de pizzaria e deixei a pasta sobre a pia. Espalhei tudo que estava dentro: certidão de nascimento, exames de sangue, extratos bancários. Doze horas depois quando abri a torneira para lavar o último copo, encharquei todos os documentos. A decisão de lavar as coisas veio depois que usei o último conjunto de talheres limpos. Dediquei-me à arte da distração. Liguei a TV, os auto-falantes, o computador. Conectei-me a todas as redes, abri todos os sacos da despensa, misturei amendoins com água da torneira (já tinha bebido até o caldo dos vasos de flores). Gastei os barbeadores, os sabonetes e a pasta de dente. Quatro dias depois as plantas mortas e secas começaram a se quebrantar em pedacinhos marrons pela casa e passei a dormir sobre eles, caminhar sobre folhas craquelando e comer sobre estes defuntos de modo que minha casa se tornou um cemitério de plantas em decomposição rondando toda minha pele e meus dias úteis. Quando acabou o álcool do banheiro, misturei pó de gelatina aos produtos de limpeza e tive uns minutos de felicidade. Sobre o sofá amontoei todas as bermudas, camisetas, moletons. E ele ficou mais fofo. O cheiro do banheiro começou a incomodar, recolhi o lixo, amarrei-o em duas ou três sacolas e deixei-o no corredor de saída. Meu cheiro tornara-se insuportável, mas nada podia em relação a isto. Era inviável sair de dentro de mim. A barba machucava, especialmente os pelos encravados. Após usar a última cueca, voltei à primeira, pelo avesso. Neste momento começou um instinto criminoso. Roubei a cesta de alimentos que o vizinho recebia toda manhã e tive comida para os próximos dias. Entrei em uns sites pornôs com o cartão de crédito dela. Vendi coisas que eu não tinha em sites especializados. Comprei mais do que o dinheiro poderia pagar. Não atendi ao interfone, ao telefone, não retornei os sms. O modem queimou depois de quarenta e oito horas ligado. Sozinho, voltei ao crime, passei a furtar jornais de domingo de manhã, vasos alheios e dois ou três quadros do saguão. Um certo dia acabou a energia elétrica, mas a água encanada permanecia. As pilhas dos relógios não eram confiáveis e eu não sabia mais as horas. Dormia sobre o colchão puro por não suportar mais o cheiro de suor na roupa de cama. Quando deixei de gostar do cheiro do colchão, passei a dormir sobre a pilha de roupas no meio da sala. Começou a fazer frio e principiei por queimar as correspondências, os livros, as folhas secas. Ajudava também para iluminar durante a noite. Enchi uns travesseiros com uns contratos de financiamento, comprovantes de pagamento, um RG antigo e uma porção de textos não lidos da faculdade. Não tomava banho há muito tempo e agora não o faria mais por falta de água quente. Os panos da cozinha passaram a ser papel higiênico quando o último jornal acabou. Com medo da falta de gás, cozinhava pouco. Fervia água pela manhã, guardava-a em uma garrafa térmica e a utilizava por todo o dia. Até que acabou o chá. Revirando o lixo velho, repassei um pouco de café. E satisfiz-me. Quando todas as roupas passaram a feder, comecei a usar as roupas que ela esquecera em casa. E foi neste dia que virei um travesti. A que mais gostava era o casaco vermelho, quente como um inferno particular. De tanto respirar aquela poeira cinza, comecei a tossir. E era uma tosse feia, destas de se preocupar. O gás acabou. Comecei a racionar o produto de meu último roubo, comer cascas, caroços, folhas queimadas, lamber pelo avesso embalagens metálicas de Ebicem®. A última coisa elétrica que me restava era o velho mp3 chinês na bolsa. Escolhi as três últimas canções e ouvi como fossem sinfonias torcendo para que o símbolo com a bateria parasse de piscar. Queimei o último livro contra o inverno e comecei a queimar dinheiro (e como eram cheirosas as notas de dois!) Perfumava o vaso sanitário com detergentes, sabões em pedra e, por falta de outros produtos, passei a jogar óleo de cozinha pensando que funcionaria como tampão para a urina. Desisti de comer e passei a beber o líquido das conservas. Emagreci. Adoeci. Mastiguei argila das esculturas, lambi a tinta dos quadros, devorei um Vik Muniz original. Lambi o reboco das paredes e pensei em me jogar pela janela usando aquele tomara que caia vermelhinho de bolinhas brancas que ela ganhara três aniversários atrás. Daí ela voltou.
