Os buracos de Túlio

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ilustrações de Linda Valente

“Hoje eu mando a velha se foder, hoje eu mando”, pensou o Túlio segurando a mochila jeans. O Túlio trabalhava na prefeitura. Atendia telefone e agendava equipes para tapar buracos. Quando sobrava dinheiro, comprava uma Playboy. Tinha vinte e nove anos, mas nem parecia: mal passava da adolescência em seus hábitos. Pegava o 775V/10, Rio Pequeno – Santa Cruz, e sempre, quando a condução chacoalhava para dobrar na Corifeu, a velha entrava – e pedia o lugar no qual a bunda do Túlio tão bem tinha se encaixado.

Quando o coletivo apontou na vala rebaixada e dobrou para a direita ele a viu e mentalizou. “Vá se foder, vá se foder, vá se foder”.

─ Filhinho, eu posso…

─ Vá se foder!

­─ Ôôôôô, moleque, séloco ?!? Dá o lugar para a senhora!! – berrou o cobrador.

─ Dou o caralho!

─ Desce do ônibus, filho da puta! Agora!

O motorista deu uma freada brusca e todos foram jogados para frente, o Túlio se desequilibrou e foi de cara contra o ferro. Seus óculos quebraram na hora e o ferrinho da armação ainda rasgou seu rosto. Muito sangue, precisou de socorro, o ônibus teve de avançar pela portaria da USP e jogar o passageiro mal-educado na emergência do Hospital Universitário.

─ E é bem feito. Para aprender a respeitar os mais velhos.

O Túlio do sonho sentia-se agoniado por morar na pele do Túlio real

ilustrações de Linda Valente

O Túlio recebeu uns pontos e voltou para casa. Ligou no escritório e avisou que não poderia trabalhar. No final, saiu no lucro. Dormiria a tarde toda. Túlio gostava de dormir, mas gostava ainda mais de sonhar. Quando sonhava, ele podia ao menos uma vez no dia não carimbar protocolos nem ouvir xingamentos, não agir como robô, desligar-se dos aparelhos digitais. Dormindo ele não via a cara da Gisele, a colega super educada que ganhava todos os elogios enquanto ele só tomava bronca. Sonhando ele era jogador de futebol, astronauta, cantor de rock. Túlio gostava de sonhar, mas sempre acordava. Em seus sonhos ele não se encontrava com velhas, ônibus, chefes, boletos vencidos. Na terra em que habitava dormindo, seu pai ainda era vivo. E como seu pai era vivo eles seguiam no domingo de manhã para o Pacaembu, paravam no meio do caminho para comprar um pastel, um caldo de cana. Como seu pai era vivo, o caldo de cana vinha com limão espremido e ficava ainda mais gostoso. E o Marcelinho ainda jogava no Corinthians. Com o pai vivo o Túlio podia xingar o juiz de tudo quanto era nome. Xingava até a mãe do juiz. No meio do xingamento ele pensava “será que a mãe do juiz também é viva?”. Seu pai era vivo no sonho e o Timão sempre ganhava. Como seu pai era vivo e o Corinthians ganhava eles saiam para comemorar e se esqueciam da vida real. Essa onde seu pai era morto.

Nessa tarde, quando chegou do hospital, o Túlio teve um sonho estranho: ele estava trabalhando na prefeitura, atendendo telefone, agendando equipes para tapar buracos. Com sutis diferenças (exemplo: sobrava dinheiro no final do mês e ele comprava uma Playboy) tudo acontecia como na vida real e o Túlio do sonho sentia-se agoniado por morar na pele do Túlio real. No sonho ele tinha vinte e nove anos, morava com a mãe e pegava o 775V no Rio Pequeno, sentido Corifeu. Quando o ônibus virava à direita o Túlio do sonho já imaginava a velha chegando. Mas, para sua surpresa, quem entrou foi outra pessoa: seu pai. Em vez de pedir o lugar do Túlio ele simplesmente parou ao seu lado. Sorriu. Sem saber o que fazer com aquilo, Túlio o fitou embasbacado, boquiaberto. O pai riu em voz alta, felizes, ambos.

─ Você quer sentar, pai?

─ Tudo bem, Cabeção. Você deve estar cansado.

─ Tô nada, senta.

─ Fica tranquilo, Túlio.

─ O senhor tá indo pra onde?

─ Vou descer na Vital Brasil, antes da ponte.

─ Hahahahaha.

─ Por que ri?

─ Um morto… descendo na Vital.

Ambos riram.

O Túlio acordou do sonho sem entender bem. Era a primeira vez que o mundo de lá se parecia tanto com a vida real. Sentia-se feliz. Como se aquele cotidiano –  idêntico ao que de fato experimentava todos os dias – trouxesse algo de inédito. A cara ainda estava rasgada, com pontos e ele tinha de se deitar sem apoiar o rosto no travesseiro. “Tudo bem, Cabeção”. Seu pai lembrava do apelido.

O Túlio trabalhava na prefeitura. Atendia telefone e agendava equipes para tapar buracos. Quando sobrava dinheiro, comprava uma Playboy

ilustrações de Linda Valente

Túlio queria sonhar sempre, mas a licença médica era de apenas três dias, ao final dos quais voltou a trabalhar. A vergonha o impedia de pegar novamente o mesmo ônibus de onde fora expulso e despejado – sangrando – na porta de um pronto socorro. Por isso acordou quarenta minutos antes para pegar o 775V das 6h40 e não o das 7h20. Mas foi só embicar na Corifeu que ele já a viu. Não podia ser. A velha! Túlio fez cara de estrangeiro, mirou o vidro, o infinito. Ela se aproximou:

─ Menino! Fiquei tão preocupada contigo… esses pontos estão fechando? Não deixa infeccionar…

O Túlio pensou em responder mas preferiu fingir que desceria no próximo ponto.

E desceu.


(texto originalmente publicado na Confraria dos Trouxas em julho de 2016. Todas as ilustrações são de Linda Valente)

no fim

um dia falarei que te amo

 

sua mão será fina e lisa

quase não haverá mais palavras no mundo

 

daí falarei isso segurando sua mão

fina, lisa, magra

e você me responderá em silêncio

 

e tá bom

 

… e no fundo encontraram o corpo da menina morta.

Mas talvez você pense que essa história acabe aqui. E não, você descobre que não, que continua infinitamente. Porque assim é a vida, até que o meteoro chegue novamente. E mesmo após o meteoro bastará um pouco de calor, um tanto de água, os gases certos, colisões de estrelas, choques, energia. E tudo recomeçará da bactéria ancestral, do microrganismo do qual todos somos netos, irmãos. E virão outra vez os répteis. E as almas dos humanos e o sexo e as armas de fogo e a revista Veja e as lanchonetes e aquele bilhete de metrô que custará tantos dinheiros e tantos centavos. Virá. Tudo virá de novo.

Mas agora ainda é manhã e Suelen luta para conseguir entrar no short jeans que não comporta toda a delícia de seu culote. Suelen tem dezessete anos, hoje é domingo e haverá um churrasco de aniversário no qual ela pretende beijar muito na boca. Principalmente o Higor. Já era mulher desde os quinze, corpo todo montado. No bairro todos queriam Suelen, mas ela não era de ninguém. Suelen nunca teria dono. Batom espesso, olhos bordados de preto, perfume. Higor é o cara mais velho da turma, repetente, rebelde, com vinte e dois anos ainda frequenta a escola, chega de moto com uma jaqueta de adesivos reflexivos e um baú da empresa. “Tôaqui express”. Suelen não ama ninguém, mas tem Higor como desafio.

– Suelen, bota roupa decente!

– Mas é decente, mãe. Nem aparece a polpa da bunda.

– Menina…

– Mamis, eu sei me cuidar.

– Pagou o carnê que te falei?

– Passei nas Casas Bahia na sexta mas já estava fechada, volto amanhã antes da aula.

Nesse mundo circular de histórias que se repetem, sempre há um desafio nos convidando. Foi assim na Babilônia, em Tróia, na expedição de Colombo, na descoberta dos buracos negros, no Big Brother 12 com o Pedro Bial. Foi assim quando o primeiro espermatozoide, sem nenhum estudo, sem amigos, sem a revista Playboy, sem seu pai dizendo “meu filho, você precisa pegar muita mulher, entende?”, sem nenhum programa de tv cuspindo bundas em quarenta e duas polegadas, simplesmente olhou para o lado e viu que outros iguais corriam a mesma corrida. Seria a primeira vez na história que aquela disputa aconteceria: diversos clones chispando-se para um lado comum, sem saber o que encontrariam nem porquê. Mesmo aí temos um ciclo de repetições. Porque o resultado daquela disputa daria num mamífero, provavelmente um marsupial, que há cento e vinte e cinco milhões de anos, numa terça-feira de sol, época perfeita para o amor, antes de inventarem o trabalho, os uniformes, os ônibus congestionados, as camas desarrumadas, antes de inventarem o Ernesto Geisel, o Groucho Marx, o Galvão Bueno, antes mesmo dos mocassins, dos cortes de cabelo, dos óculos de grau, bem anterior aos absorventes internos, ao conceito de “hora do almoço”, ao ensino de geografia, antes do descobrimento da camada de ozônio, do polietileno, da invenção dos Simpsons, quando às terças-feiras não havia nada mais interessante para se fazer do que se reproduzir e (como se poderia fazer aquilo a qualquer momento) isso nem era tão interessante quanto é hoje, pois bem, antes de tudo isso, o primeiro espermatozoide engatou no páreo que todos os mamíferos seguiriam depois, réplicas do tal espermatozoide e, portanto, tomados pela essência do desafio: somente um poderia vencer. Curioso isso. O pobre bichinho correu tanto apenas para saber que teria mais alguns anos de vida, mutante, agora com patas, braços, cabeça. E fome. E é nessa história que entra a Suelen. Suelen tem um desafio, igual Aquiles, Colombo ou Marie Curie: beijar Higor na boca. Higor, o motoboy.

Mas se a história acabasse aqui ela não teria graça. Precisava mais um tico, uma reviravolta, tensão ou coisa que o valha. E daí, quando digo isso, você relê o título do conto e pensa “Ohhh, será agora que virá o assassino?”, mas talvez suponha “Não, o autor costuma escrever textos mais inteligentes, menos simplistas, tem aquele legal sobre o Jesus de Copacabana, ou aquele outro da velhinha demente no elevador, ele não revelaria assim, tão simples, o assassino. Talvez queira nos levar para pistas falsas. Ahhh, já sei, nem terá um assassino, quer ver?” e com isso você segue lendo, ou decide pular para a última linha e descobrir a verdade. Daí, nesse ir e vir de parágrafos você percebe que essa história que está lendo é cíclica, fala de recomeços e eternidades sendo ela mesma uma prova disso. E aqui em casa, às vinte e uma e cinquenta de uma sexta-feira sem sexo eu rio de você, hahaha, leitor dedicado. Estou realmente feliz por sua disciplina, sua paciência, seu amor à literatura. E o nome do personagem que tchantchantchantchaaaan ninguém sabe ainda o que fará é: Julinho. Filho do Tiago Popó, ele virou Júlio Popó. Julinho é filho de uma gravidez que ninguém queria que fosse. O pai gozou sem perceber, a mãe não tinha nem terminado o ensino médio. Quando a barriga cresceu nunca mais apareceu na escola. E daí você pensa “olha que ironia: Júlio, o nome dos césares, dos poderosos, Júlio, o Imperador, será como chamaremos esse personagem de passado tão fútil, banal, periférico, logo esse desimportante gerado no banheiro da escola estadual de primeiro e segundo grau professor Eromildo de Oliveira” e espera que eu confesse o porquê da escolha do nome e então o faço: Júlio é o nome do inventor da camisinha. A que, usada, teria evitado a vida de Júlio Popó, o Julinho. Raquítico, morre de vergonha de Suelen, a gostosa. Pudera, ela nunca olhava para ninguém, esnobe. Julinho passou a trabalhar na oficina mecânica do padrasto em troca de setecentos reais e o direito de usar o carro nos finais de semana. Ele pega o chevette e acha que terá mais chances com Suelen. Se ela ao menos me olhasse… Com o carro ela me olhará. Eu sei. Fim de tarde vou no churrasco do Morcegão, já sei que ela estará lá. E conseguirei, sim. Julinho confabulava sobre Suelen desde antes de arranjar coragem para falar com ela. Já sonhava com a garota desde os oito anos. Naquela época nem era esse gostar de hoje. Era uma admiração. Pela menina mais linda, o conto de fadas. Virou tesão um tempo depois. Foi Suelen quem fez Julinho descobrir que poderia produzir porra e, acreditem, isso foi muito simbólico para ele, quase uma prova de amor. Ela nunca soube, vivia apenas na imaginação do pobre menino sentado no assento fofinho do vaso sanitário, mas aí a história, não, a História se move: no desafio. Quando Julinho pegou o carro nada o fazia menos especial do que Napoleão, Neil Armstrong, Michael Jordan. Um homem em busca de seus sonhos.

Foi por isso que doeu tanto quando ele chegou e viu Suelen sentada na moto do Higor. Ela estava com um short tão curto que, ao abrir as pernas para permitir que Higor a abraçasse, praticamente se confundia com uma calcinha. Ele a apertava com o braço esquerdo e dava para ver suas veias saltando sob a pele. Enroscava-se nos cabelos da menina, puxava de leve. O beijo era tão intenso que a rua toda fazia de conta que não, mas olhava. Inclusive Julinho. Naquela hora ele pensou em morrer, sério que pensou. Julinho meio que amava, mas não sabia o que era aquilo. O segundo espermatozoide não sabia o que fazer.

– Maaano, olha a cara do Julinho!

– Pois é, sempre achei que ele gostasse da Suelen, coitado.

– Vadia, essa não serve pra ele não. Julinho é trabalhador, não merece piranha que nem ela.

– Suelen?

– Quem mais?

– Não sei, nunca vi ela pegando ninguém. Acha que ela é puta?

– Acho.

– Mas por que?

– E precisa motivo?

Julinho, o segundo espermatozoide”. Logo ele, tataraneto do marsupial, herdeiro do começo de tudo, ele que só morava no Brasil porque uns homens anos atrás se dispuseram a cruzar um oceano inteiro em busca de cana-de-açúcar e depois trouxeram homens negros de outro continente para trabalhar nas lavouras e um desses senhores certo dia pediu ao capataz que buscasse uma negra jovem, ele sabia qual seria, a dos peitos duros, e a estuprou ali mesmo, no quarto onde à noite dormiria com a esposa, essa que suspeitaria do acontecido, pelos cheiros, pelas manchas, mas que se calaria, sem saber que seu católico marido havia engravidado a pobre escrava que, chorosa, nunca se orgulharia de olhar para a filha, herdeira carnuda de um crime. Gerações sobre gerações isso tudo desaguaria no meio da Favela da Coca-Cola, nesse menino Julinho, fruto da trepada de uma garota de quinze anos com outro rapaz que não consumia camisinhas, livros de história ou refrigerantes. Herdeiro de todos esses séculos, da escrava estuprada, da bactéria, Julinho não soube o que fazer.

Por falta de saber, agiu. O padrasto andava armado, já tinha sido assaltado e não daria mole uma segunda vez. Julinho pegou o revólver dentro do porta luvas, apontou e atirou. Bem nas costas do Higor que, durante o beijo, caiu. Suelen, sem entender, desesperou-se. Arrastada pelos cabelos, entrou no carro. A polícia foi acionada e iniciou as buscas. Treze horas depois ainda não se tinha nenhuma notícia dos dois.

– Chama a ambulância, ele vai morrer!!

– Meu Deus! O cara levou a namorada dele.

– Você viu quem foi? Foi o Julinho mesmo?

– Claro que foi.

– Meu Deus! Nunca imaginei. E ele, morreu?

– Chama a ambulância!

Na manhã de segunda, uma pista. Sim, rastrearam o celular do Julinho, o sinal vinha do meio de um matagal em Bragança Paulista. Vasculharam a região e nada encontraram. Uma semana depois, um caseiro da redondeza telefonou um nove zero pois sentiu cheiro de carniça vindo de um poço desativado.  A polícia foi investigar. O fedor estava forte, jogaram luz de lanterna dentro do buraco…

Brenda

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Entrei no elevador e a senhorinha abriu um largo sorriso, amoroso, amplo. Oi, que lindo você por aqui, disse-me. A filha, um tanto embaraçada, explicou, não repara, ela o confunde com alguma outra pessoa. Ele se parece com o Bernardo, não é mamãe? A senhorinha, focada, congelava-se em mim, um  imperturbável sorriso feliz.

Em algum local de seu cérebro, minha imagem ecoava trazendo-lhe do passado uma figura que refletia-se nos espelhos foscos de sua memória e, ricocheteando-se em ásperas paredes de estalactites disformes, transformava-se. Ainda que fosse eu, seguia sendo outro. Um outro que atraía um sorriso magnético, ao qual eu retribuía guloso por este amor que não era meu, mas que roubava por necessidade e que me era entregue pela mesma razão.

Por cinco andares nos fizemos felizes. Nenhum de nós mentia.

Todo amor que sobrou pra mim cabe numa xícara de café coado

Cecília percebeu o hábito do marido: pela manhã, ao beber seu café fumegante, misturava-o a um pouco de saliva, comprimia contra os dentes a gosma resultante, atravessava-a pelas fendas entre os caninos e despejava na língua o líquido aerado e ligeiramente resfriado. Para não queimar a boca, os músculos da face se contorciam na velocidade e ordem corretas. Seria mais prático esperar a bebida esfriar, mas era assim que preferia seguir. Estava velho.

Silenciosa, assistiu ao ritual do par, sem repreensões. Não fazia mais sentido. Sabia agora que dois terços das coisas que a confrangeram durante toda a vida tinham sido merdas desimportantes. Mas não havia regresso. Ao perceber que ele também a aceitara exatamente como era, sentiu que chegavam em silêncio ao trato pelo qual pelejaram por anos em ressonante fracasso.

A última briga violenta tinha acontecido dez anos antes e acabou com ambos no hospital. Oswaldo recebendo curativos nas costas perfuradas por um garfo de cozinha. Cecília acompanhando-o em um franco gesto de companheirismo protocolar nascido da impossibilidade de conceber uma visita do marido ao médico sem que ela o seguisse. Começou com as reclamações dele sobre os hábitos alimentares da mulher. Cecília não entendia qual o problema em repetir uma fatia do bolo, não possuía nenhuma recomendação médica contrária. Tampouco lhe agradou a forma agressiva e abrupta com a qual o marido lhe apontou o dedo praguejando frases dizimadoras sobre artérias entupidas e pernas amputadas.

[pensamento ruidoso #1]: Ela, professora universitária. Formando mais de duzentos alunos em suas aulas na faculdade de Belas Artes;

[#2]: Ela na maternidade. Quase sendo mãe, ou sendo sem sê-lo. Trinta e dois anos atrás acolheu seu natimorto bebê durante apenas um longo abraço, despedindo-se dilacerada do fruto de uma gravidez complicada e de um parto trágico

[#3:] Ela fundando partidos e ideologias;

[#4]: Ela viajando com e sem dinheiro;

[pensamento ruidoso final]: Ela cultivando em casa mais plantas do que um ser humano normal poderia fazer por toda uma vida e se perguntando por que mesmo não poderia comer por quantas vezes quisesse a porra de uma torta confeitada, puta que o pariu!

O ambiente piorou na proporção de suas incompreensões mútuas, fonte da maior parte dos desentendimentos e embates. Cada vivência tornava-se um conflito: a ordem na qual as diversas roupas de cama estariam dispostas, a decisão sobre uma possível viagem para comemoração do prêmio que ele tinha recebido na editora, as ruas a serem atravessadas para se chegar ao centro e, finalmente, o jantar de domingo

(bastava que ele calasse a boca, que ele guardasse para si as malditas opiniões sobre as quantidades de sal e alho, mastigasse pausadamente cada porção e dormisse em silêncio. Poderia talvez afogar cada uma das palavras em vigorosas goladas do sumo de tangerina ou desistir, comovido pelo silêncio das vidas que se acabam em conjunto por nunca terem de fato convivido)

mas, ao final daquela semana de atritos perenes, ele falou. Depois um dos pratos foi arremessado ao chão com todos seus molhos e temperos. Gritos, gritos, gritos, portas fechadas, maçanetas empunhadas violentamente, grito, gritos, medo. Sobre eu deveria ter ido embora quando, sobre como nunca deveria, sobre como eu não aguento mais, sobre o inferno que era ter de. Gritos. Ele a segurou pelo ombro e, desvencilhando-se do abraço, por susto e ato reflexo, ela enfiou-lhe nas costas o garfo ainda sujo de caldo de carne. Duas vezes.

Quando se conheceram, tudo era um jogo de sedução. A artista recém formada e o conquistador mestrando em literatura. Cecília exibia um charme ingênuo, fazia destas perguntas de menina do interior, perdida na cidade grande. Chamava os desconhecidos de “moço”. Oswaldo esforçava-se numa constante dança do acasalamento que incluía entradas para shows, carros polidos, viagens para países de línguas estranhas e perfumes. Conheceram-se por intermédio do irmão dela, chargista simpático no jornal onde ele traduzia páginas do New York Times. Primeiro foi uma festa, depois o cinema, um toque de mãos. Quando menos perceberam, as diferenças daquelas vidas distintas estavam superadas em nome de algo que acreditavam poder durar para sempre.

Naquele dia nublado em que ela se dedicava a desvendar o nojento gesto do marido ao engolir seu café quente espumado em saliva, Oswaldo ouvia a tradução simultânea que um jovem ansioso fazia do pronunciamento do presidente americano. Bush perdido descobrindo seu país sob ataque falava à nação sobre a vingança das torres. Entortado no sofá ele mudava constantemente de postura para, ao menos, alternar o local das dores. Ela observava-o ao longe pensando não ser notada. Mal sabia que, enquanto ouvia aqueles dois idiomas entrecruzados e propunha mentalmente qual seria a melhor tradução, o pensamento de Oswaldo voava para outros tempos. Sabia que também era observado. E podia decifrar o sentido daquilo. O silêncio de ambos era antes de tudo um brinde. Ele fingia que ouvia a verborragia do W. Bush porque não queria que nada daquele instante se movesse. Numa transa sem sexo curtiam um ao outro, calados e distantes. Ele pensou “Por Deus, como amo esta mulher!” e ela conseguiu se lembrar de algo que estava perdido, enrugado no fundo de alguma gaveta da memória: ocorrera apenas dois anos após terem se conhecido. Vivendo ainda um namoro recheado de perguntas a serem feitas, visitaram a casa dos pais dele. Recordou-se claramente quando, na manhã de domingo, a sogra proferiu um daqueles pitos constrangedores de serem ouvidos após a maturidade: “Menino, pare com esta mania porca de fazer chiado com o café na boca”. Percebeu que, como em uma Macondo esquecida, a porcaria do mundo seguia dando voltas. E que o homem que a amava e era retribuído nunca largara de ser o mesmo. Lembrou das brigas e não as compreendeu. Tantas noites dormidas em choro, separada, de mal humor. Se ambos sempre foram os mesmos, “então por que…?” e desistiu no meio da pergunta.

(texto originalmente publicado na Revista Subversa no ano de 2016)

Jesus de Sunga Verde

“O coração alegre faz bem como o que cura, mas o espírito abatido resseca os ossos”

(Provérbios 17:22 – tradução de 1986 da Watch Tower Bible and Tract Society of Pennsylvania)

Foi há muito tempo atrás, em Copacabana.

Lá por 2015, 2020, não lembro bem. Minha memória ficou ruim depois da última surra e da amputação. Era ainda na época em que a gente pensava em sexo. Antes da vacina e tal. Existiam quatro personagens que me faziam saber que eu estava em Copacabana: o primeiro era O Homem do Macaco Felpudo que falava com um apitinho na boca. Você estava comendo num restaurante qualquer pela Atlântica e ele chegava com um fantoche peludo, um símio de pelos longos, cheio de ácaro e falava umas coisas como ventríloquo, com a voz fina e engraçada. Daí a garota que estava contigo dava uma risadinha e você também dava uma risadinha e todos ficavam felizes e ele tentava te vender aquele macaco de pelúcia (e acho que o apitinho também). Era um cara sem importância alguma. Mas sempre que o encontrava, sentia uma segurança de estar em casa. A outra figura emblemática era o Louquinho da Caixa de Som. Nunca soube exatamente se era louco mesmo, já deve ter morrido. Jamais falei com ele: andava de um lado para o outro na praia, acho que ia do Leme ao Forte de Copacabana e depois voltava e voltava e voltava. Era um sem parar danado. Usava um boné virado de lado, sem camisa, um calção de surfista, pés descalços. Tinha os dentões saltados pra frente, cara de psicopata. Mas o que mais chamava a atenção era sua caixinha do mal: um alto-falante demoníaco que cuspia funk em voz alta pra quem quisesse ouvir, ininterruptamente. Nunca o notei acompanhado, tampouco conversando com alguém. Era só a caixa de som, volume alto e um trote que não acabava nunca. A terceira figura não era bem um personagem, estava mais para uma entidade, uma categoria. Que se proliferou aos montes naquele tempo (volto a dizer, foi antes do Reinado de Malafaia II, ou seja, a praia ainda era pública, não tinha donos e grades como hoje. Talvez fique difícil pra vocês entenderem, mas posso desenhar como era se precisarem. Infelizmente não se fabricam mais aqueles negócios que nos ajudavam a entender os tempos de antes, chamavam-se livros de História. Senão recomendaria algum. Se você tentar com um IP pirata, de fora do Brasil, talvez consiga acessar uns sites com fotos desta época, te garanto). Voltando à terceira criatura: era o Atirador de Pirocóptero Colorido. Nunca soube o nome exato daquilo. Mas garanto, naquela época você encontraria duas coisas no calçadão de Copacabana: um mosaico de pedras pretas e brancas formando desenhos ondulados e vários atiradores de pirocópteros coloridos. Eram uns trecos cheios de luz que eles arremessavam o mais alto que pudessem com um elástico. O troço subia na altura dos postes e depois caía com uma hélice que retardava a queda e que permitia vê-lo iluminado contra o céu escuro. Era bonito. Eu andava neste tempo, sem cadeira de rodas. E me hipnotizava com aquilo tudo.

E tinha ele: o Jesus de Sunga Verde. Geralmente ficava pelo Leme, na areia. Parece que vivia por ali, mas já o encontrara até na altura da Avenida Marquezine (antes da morte da primeira dama, a rua chamava Siqueira Campos e tinha na esquina a estátua de um cara sofrendo que, quando olhávamos contra o sol, parecia estar com uma baioneta enfiada no rabo). Nunca soube o real nome do Jesus. Chamava-o assim porque ele parecia aqueles desenhos nos quais aprendemos a reconhecer o rosto do Messias: branco, olho claro, cabelo comprido e cacheado. O Jesus do Leme era atlético, ainda que magro, provavelmente fruto de seus hábitos saudáveis. Sempre correndo: os cabelos abençoados chacoalhando na nuca, pés batendo na areia fofa e somente uma sunga à guisa de túnica sacra. Uma sunga de um verde militar que, por ser única, lembrava muito mais um uniforme do que uma peça cotidiana de roupa. Nada mais merecido para um super-herói. Acho que era isto que me frisava aquela imagem na cabeça: o fato de que Jesus de Sunga Verde era o mais próximo que eu poderia chegar do Super Homem, do Batman, do Homem Aranha. Na minha época eram uns caras que vestiam uniforme igual ao do Jesus e nos permitiam sonhar que a vida poderia ir além da Manjedoura em que vivíamos (nota: o corretor moral automático provavelmente alterará meu vocabulário nesta última linha mudando a palavra real que escrevi – apenas a primeira letra será mantida, ele trocará o restante e colocará em itálico. Por isto, explico: a palavra iniciada com M era uma interjeição muito utilizada no final do século XX, tinha um sentido pejorativo e fazia correlação com as fezes que saíam de nosso Cordeiro, ou seja, Milagre! Maravilhas!! Messiânico!!! – espero que tenha me feito entender). Jesus corria pela areia. Não olhava para ninguém, não falava, apenas praticava seu esporte preferido naquela faixa estreita que ficava entre o molhado da maré e a areia seca do restante da praia. Mas por ser único, por ser Jesus, por usar uniforme, me marcava sempre que o via. E sentia aquela paz das coisas familiares quando vistas em terras estrangeiras.

Essa época até que era boa, mas daí eu resolvi pensar demais.

Não percebi que os tempos estavam mudando. Depois da Revolução de Labão eu deveria ter calado a boca. Mas continuava fermentando ideias. A última vez que falei algo aqui no Brasil, pouca gente deu atenção. Mas eles ouviram e eu paguei caro por isto. Fui protestar logo contra a vacina. Não era nem por conta da marca gigantesca que deixava no braço, oito vezes maior do que a BCG, tampouco pelo fato de aplicarem em bebês que ainda nem haviam aprendido a falar. Mas a tal vacina anti-tesão tinha sido a maior sacanagem já inventada pela humanidade até então. Diziam que iria acabar com um monte de doenças, impedir a reprodução em escala, equilibrar as contas da Previdência Pública. E para isto injetavam na gente um treco que tirava até a vontade de bater Pentecostes (vocês não irão entender e, se o corretor funcionou, nem o nome correto saiu, mas era algo que a gente fazia muito antes da vacina, uma manipulação dos órgãos sexuais que gerava prazer, tentem imaginar que era como receber um vale download, mas todo dia e sem depender do governo do Rei). Pois bem, resolvi ter ideias contrárias a ela e me ensinaram que eu não poderia fazer isto não. Um dia acordei com um furgão na porta de casa. Quatro caras me jogaram lá dentro e me moeram tão moidinho que eu desaprendi até o que não precisava, desaprendi com créditos e horas extras. Até hoje sou grato a estes senhores. Não fosse por eles eu talvez ainda estivesse por aí, perdido em ideias incorretas, profanando o nome do Rei. Hoje, ao me perguntarem se prefiro pensar ou tomar um Guaravita, é claro que peço o meu com um copo de gelo à parte.

Pouco depois tudo mudou. Veio a Revolução, começamos a tal Teocracia e me expulsaram para o México. Antes disto testaram uma nova droga em mim. Se tivesse funcionado, eu nem estaria escrevendo este texto. Ela prometia apagar até nosso poder de ser irônico. Mas não surtiu efeito. Só serviu para amputarem minha perna esquerda. E foi assim que eu cheguei em Guadalajara: empurrado por dois servos do Novo Governo e girando as rodas da cadeira com o que me restava de força nos braços. E lá passei quase trinta anos até a instauração da Política de Relaxamento de Malafaia II, o Bondoso, que me permitiu voltar para Copacabana ainda que velho e amputado. Assim que cheguei pedi uns óculos escuros para minha sobrinha, a única parente que ousou me reconhecer. Convidei-a para a praia e ela apressou-se em vestir a roupa apropriada para o momento: um vestido florido que me permitia ver seus pés e mãos. Deu oito voltas no longo cabelo com medo de que enganchasse nas rodas da cadeira e me empurrou até os lados do antigo Posto Dois. Segundo ela o dono daquele lote de praia cobrava o ingresso mais barato da região e parcelava as visitas no cartão. Assim, com seu salário de médica ela poderia pagar a entrada para nós dois sem grandes constrangimentos.

Confesso que chorei ao ver o mar novamente. Continuava igual, barulhento, arredio, irascível, sem dono e sem domínio. Por trás dos óculos de sol a vida ainda me emocionava. Pedi que me levasse mais próximo e ela contratou a passagem pelo Píer dos Aleijados, uma construção em madeira que lembrava uma esteira e servia para os muitos como eu, amputados pela Revolução, chegarem até a água. O mar estava frio, como me recordava ser, e o contato daquele gelo com a perna restante puxou tantos outros pequenos registros do fio da memória. Lembrei-me de quando comi caju pela primeira vez. E da época em que comprava envelopinhos com os jogadores da Champions League em adesivos retangulares. E, enquanto chorava silencioso, ele apareceu cortando minha reflexão: Jesus. Pelas minhas contas deveria ter mais de oitenta anos, mas ainda estava saudável e corria. Os peitos caídos, a bunda e a barriga também. Os cabelos cacheados eram um pouco mais ralos, mas o olhar permanecia o mesmo. Assim como a sunga, verde. Parecia que, enquanto o mundo girava em seus exercícios de insanidade, Jesus de Sunga Verde, meu verdadeiro Capitão América, nosso X-Man, continuava ali, dando sentido à humanidade e correndo pela areia daquela praia pré-histórica. Agora seu circuito era obrigatoriamente mais curto. Ele ia de uma grade à outra daquele pedaço privado para o qual, por um presente do destino, eu também havia comprado meu ingresso. Minha sobrinha resolveu sentar-se e eu segui apenas olhando e rindo, rindo, rindo. Até que gargalhei para que todos pudessem ouvir e a água que molhou meu rosto veio da compressão das glândulas lacrimais pelas bochechas que, de tanto rir, doíam. Jesus não ligava para nada que ouvisse de mim ou de qualquer outro. Como nunca ligou. Eu gargalhava e Jesus apenas corria para lá e para cá. Autista e impassível. Naquele momento Jesus de Sunga Verde me salvou de um mal do qual eu sequer sabia ser acometido. Lembrei de quando essa praia era repleta de bundas empinadas e peitinhos durinhos, de quando meu pênis ainda ficava ereto com aquilo. Naquela época Jesus de Sunga Verde já corria por aquela areia e eu sabia que ele também poderia se lembrar. Senti raiva de tudo e de todos. Apertei com todo ódio do mundo uma concha que segurava nas mãos, e a quebrei em mil pedacinhos. Telepaticamente mandei todos pra casa do Cafarnaum, aqueles filhos da Persépolis!

Migrantes

Migrantes

ilustração de Isabela Jerônimo

 

para meu irmão, Antonio Carlos


Antes de tudo, este é um relato de ausências. Do que aconteceu e do que poderia ser dito que aconteceu. Porque na real faltou coisa pra cacete. O que poderia ter sido contado e o que poderia ter sido esquecido. Mentira minha, o esquecimento não faltou não. O esquecimento veio junto, coladinho na rabeta do trem que nos trouxe até aqui, rabiola de pipa que quando está ninguém nota e quando falta cria ausência. Porra nenhuma, porra nenhuma. Xi, tá confuso. Este é um relato de três fotos porque as outras faltaram, pediram licença, apresentaram atestado médico e vazaram. Jeito meu engraçadinho de falar que não lembro, não as tive, não as tenho. Estão somente as três fotos enfileiradas ao lado uma da outra na ordem que eu escolhi que ficassem. Imagina agora: três fotos enfileiradas. Já já as descreverei e você entenderá. Por enquanto só imagina. E como todo o resto falta, este é um relato de ausências. Porque foto não é vida: foto é registro. Se só tem o registro, o resto falta. Além do mais, se não fosse eu, quem mais poderia contar? Ninguém. Então, se sou só eu, falta.

Falta no futebol é foda. E quando até o futebol falta?

– Deixa ele correr, marca o dez, o magrinho deixa aí sozinho que este aí a vida mesmo marca ele, hahahah.

– Hahahahahah, vai deixar ele te zuar assim?

– Mano, sério, vai pro gol, na linha você não serve. Agarra lá pra gente.

O gol. O gol, ponto. O gol com o qual todos sonham, aquela marca de que finalmente você chegou lá, sabe? Fazer o gol, marcar o gol, ser o artilheiro do país do futebol, ser o campeão e levantar aquela caneca que, nos jogos finais, fica atrás do gol: pra te atrair. “Bota ele no gol”, “Não põe ninguém pra marcar ele não, este aí a vida marca”;

#botaelenogol;

#esteaíavidamarca.

-Vai pra quermesse?

-Quermesse? Mas minha mãe disse que não deixa, sei lá, o povo bebe, fuma maconha.

-Áaa!, rásefodê então.

Maconha não, macumba não, não me misturo, não se mistura, não sei, não sabe. Não posso ir com o povo da maconha e da macumba. E sabe por que? Porque hoje você tá rico e compra um bagulho e bota na boca junto com seus amigos ricos que também botam na boca e olha que legal! e olha que barato!, e olha que descolado!, e vamos descontrair!, e é só pra relaxar, e maaaaaaano, cê não sabe quem colou aqui com um barato louco, e vamos no morrinho depois da prova?, e carai, tá cum zóio vermeio heim, fiu? Cê se ligou? Então, tudo isto que é mega moderninho e que você acha bacana, tudo isto que faz de você hoje um cara mais legal, não era muito legal ali, naquela época, naquela década, naquele momento onde fumar aquilo ou não era o que diferenciava os meninos que chegavam à idade do exército vivos e livres e os que não davam certo, os que viravam números. Cê entendeu? Entendeu que o que é maneiríssimo pra um pode ser foda pro outro? Cê já sonhou em ter uma caixa de isopor branca e novinha pra vender sorvete no trem? E a macumba? Ah, macumba era frescura mesmo. A mãe achava que era do capeta, ensinaram que era do capeta. Só isto.

Três fotos enfileiradas.  Lembra delas agora. Imagina. E era tudo que tinha sobrado. Tinha mais foto antes. Tem uma que eu lembro que aparecia o vô. Tinha aquelas fotos que eram pequenininhas, quase transparentes, impressas num filme escurinho. Daí você colocava num negocinho de plástico que parecia um funil retangular. Numa ponta tinha uma lente e na outra ficava a foto apoiada num suporte branco. Daí você apontava este negocinho pro sol e via a foto. O sol atravessava. A luz atravessava. Você atravessava a foto e via. E era super tecnológico, bom pra caralho. Mas daí a gente jogava a foto fora e usava o negocinho como lupa pra canalizar a luz do sol em um foco único e tentar matar formiga. Carbonizada. Antes do YouTube ter dó das formiguinhas era isto que a gente fazia. A gente não tinha politicamente correto nenhum para com a #formiguinhaquedó. Era feixe de luz na cabeça. Mas nesta, vai vendo, a foto (lembra da foto) sumia. E ficava só o negocinho de plástico. E foi assim que a gente acabou com o passado. Com infantilidade imprevidente, insensatez, crueldade, falta de educação e ignorância: os mesmos ingredientes com os quais um monte de gente mata um monte de coisa. De travesti a continentes. Daí sobraram só as três fotos enfileiradas.

Na primeira tem um sorriso lindo na sua cara, moleque! Porra, como era gostoso te segurar naquela época, super inteligente, esperto pra caramba já, ria de tudo, a vida tinha uma graça imensa. Você sabia junto com o cachorro quando o pai tava chegando. Ele abanava o rabo e você abria o sorriso. O barulho da Kombi velha, papapapapapappappapappapapapapapaaaaaaaa (desliga o motor), au, au, au, au, au, gãããããããã, baba! Coisa mais linda. Era bom te ver sorrir, moleque, tô lacrimejando de lembrar. E a colcha cafona e quente da cama? Bagulho enchia de pelo de bicho, esquentava pra cacete, fedia a suor. Hahahaha. E a cortina? Hahhhaha. A cortina, mano, tinha tipo uma estampa de cana-de-açúcar verde, um bambu esquisito. Mas já dava pra ver que iriam te deixar metódico. Sua roupa parecia um uniformezinho, tudo combinando. Daí começou uma coisa esquisita. De querer tirar foto sua e te ver bonito. De te comprar roupa pra te vestir legal. De te fazer ser quem você não é.  Tem uma foto, a do meio, que é assim. Cê tá lá, sentadinho tipo um rei no trono. Cara de rei. No trono. Sentadão, pá! Vai vendo. Fundo falso, puta foto fake anos oitenta imitando um bosque outonal num país frio. Vai vendo, fazendo foto em Carapicuíba com paisagem Canadense no fundo. Você lá, mó cara de marrentão, nem sei se era sua ou se mandaram fazer. Não! E o “Trono”? Cadeirinha daquelas que parece que eles entrelaçaram centenas de canudinhos até dar liga pra sentar. E você lá: marrentão. Daí, já viu, né? Terceira foto, pô, to chorando mesmo, djou… terceira foto é foda. Cê tá sozinho. Que nem você iria ficar. Acho que cê fica porque gosta. Mas cê parece triste nesta foto. O cachorrinho preto tá no seu colo e é tudo que você tem. Você segura nele como quem abraçasse, mas seu rosto mostra outra coisa: parece que você segura ele assim porque é a última coisa que você tem. Porque você não tem mais ninguém, porque você nunca teve ou porque todo mundo foi embora. Mas quem teria ido? Não, ninguém foi. Ninguém veio. É isto: na realidade enquanto eles jogavam bola lá fora você olhava da grade de madeira do portão, #botaelenogol, #esteaíavidamarca, só tem você, o cachorrinho e eu batendo a foto. E foi o que sobrou: as três.

Faltam fotos porque falta história porque falta família porque faltam elos porque falta orgulho porque falta amor porque falta amor próprio porque falta jeito de se amar porque sobra medo porque houve fuga e culpa porque pra ter foto tem de ter grana porque nos anos oitenta não tinha smartphone porque nos anos oitenta quem tirava foto era rico ou fotógrafo quer dizer não precisava ser rico mas precisava ter câmera quer dizer não precisava ser rico precisava só não fugir não ter medo arranjar um jeito de amar ter amor próprio ter amor e orgulho pra fotografar precisava ter os elos e pra fotografar precisava antes ter família pra poder ter história. Era assim nos anos oitenta.

Mentira, precisava ter nada.

Pra fotografar só precisava luz. O resto é desculpa.


texto originalmente publicado na Revista Subversa em Outubro de 2015.

Ilustração: Isabela Jerônimo