As bestas

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Fotografia: Lucia Dias

Não me julgue antes de saber toda a história.

A foto foi verdadeira, mas todos nós, humanos, temos razões para mentir! Não fosse isso a mentira, vítima da Teoria da Evolução, teria desaparecido da História, virado fóssil social contado apenas nos livros. Um dos primeiros efeitos das redes sociais foi a supressão da mentira. E hoje vivemos exatamente a crise disso: ao apagar a chance de organizarmos o mundo em torno dela, a coletânea de todas as nossas mentiras converteu-se na pós-verdade. Antes diferenciávamos uma da outra e julgávamos a verdade como moralmente superior. Hoje tudo depende de como contamos a história. A democracia, como a verdade, são sofismos.

Ano passado eu peguei a grana da rescisão depois de ser demitida da agência e comprei novos equipamentos. A ideia era usar os contatos na publicidade e me iniciar como fotógrafa iniciante. Eu já fazia alguns cliques e, mesmo sem formação, supus que a somatória de bom gosto e de uma agenda telefônica com os nomes certos seria o suficiente. Flash novo, refletor, uma teleobjetiva com bastante luz. Confesso, o dinheiro não deu para tudo isso, precisei completar com um empréstimo dos meus pais. A realidade, entretanto, mostrou-se diferente. Onze meses depois e eu estava morando no quartinho de empregada no apê de uma amiga. Não era algo que ela alugasse, me foi cedido por um preço módico, misto de amizade e compaixão. Dormia no colchonete, usava uma arara para as roupas e compartilhávamos o banheiro e a cozinha.

Um dia me apareceu uma oportunidade aos finais de semana: fotografar corridas de amadores. O negócio era simples, mas cansativo. Acordava as cinco da manhã no domingo, escolhia um canto do circuito para ficar (geralmente pelas possibilidades de enquadramento) e esperava os corredores se debandarem por ali. Depois ia para o meu quartinho e iniciava os filtros: apagava fotos inteiras, borrões, sujeiras, imagens sem personalidade. Daí vinha a parte mais chata. “Ler” o número de cada etiqueta no peito dos corredores e separar cada foto para que os atletas depois localizassem no site aquelas em que apareciam. Tudo deveria ficar pronto antes de quarta-feira, data limite para exibição e venda. Cada vez que alguém comprava uma foto eu ganhava cinquenta centavos. Fora a grana do dia do evento: setenta e cinco reais para lanches e almoço. Era como eu tentava viver e sair do quarto de empregada da minha amiga antes que a depressão me atingisse.

Até que apareceu a foto.

Geralmente o trabalho de seleção me deixava exausta e na quarta à noite fui dormir cedo. Acordei ao meio dia e fui checar e-mails. Minha caixa de entrada registrava 77 mensagens não lidas, todas recebidas nas últimas nove horas. Na rede social havia “convites de amizade” de gente de fora do Brasil. Comecei a ficar assustada. Peguei o celular e me deparei com mais de 300 conversas. Debates, explorações e replicações da minha foto. Alguns desconhecidos se apresentavam como representantes de organizações esotéricas e pediam detalhes sobre o meu registro. O telefone tocou quatro vezes: era a polícia.

— Bom dia, procuramos pela senhora Beatriz Rosa.

Com trinta recém completos eu não gostava de ser chamado de “senhora”, mas achei melhor não prolongar conversa.

— Pois não?

— Aqui fala o delegado Vitorino. A senhora teria a foto em melhor definição?

— Mas qual foto?

—Sem brincadeiras, por favor, Sra. Beatriz. Isso aqui tá um inferno hoje. A imprensa não te achou aí também?

Mal sabia ele que há meses eu não tinha mais um endereço onde a imprensa pudesse me achar.

— Delegado, não entendo bem…

— A foto, a senhora teria em alta resolução?

— Sr. Vitorino, acreditaria se eu dissesse não ter a mínima ideia do que está acontecendo?

Então ele me contou. Há sete meses vinham surgindo corpos próximos ou dentro da mata. No princípio animais dilacerados, muito sangue em volta e pedaços de carne ausentes. Um cão perdido fora deixado em osso puro.

— Nossa!

— Pois é. Mas o pior veio depois. Já há uns sessenta dias apareceu o primeiro humano. Foi terrível. Até agora não temos condições de identificar o corpo, estamos esperando alguém dar parte de desaparecimento na região para fazermos teste de DNA. Ficou praticamente no esqueleto, uns trapos de roupa. Não divulgamos nada por conta da histeria que poderia gerar, mas aqui na repartição não se fala em outra coisa. Se fosse lá para a zona oeste seria mais tranquilo para mim, mas parece que as bestas estão escondidas na mata logo aqui atrás.

— Bestas?

— Ah, sim, a senhora realmente não ligou a televisão hoje, correto? Pois bem: algo chamou a atenção no estudo dos corpos. Os ossos guardavam marcas de dentes, mas não era uma dentição conhecida. Comparamos com humanos, lobos, roedores de maior porte, cães e até com animais que não fazem parte dessa fauna. E para piorar: constatamos dois pares diferentes de mordidas. As bestas atacam em dupla.

— Deus!

— A senhora soube do que ocorreu no domingo?

— Não.

— Um dos corredores jamais chegou. Era um senhor de cinquenta anos, provavelmente corria sozinho, desgarrado do bando. Já na segunda-feira empreendemos uma busca na mata e encontramos exatamente o mesmo cenário de terror: litros de sangue coagulado e um banquete consumido até os ossos. O teste de DNA conferiu com o sangue da família, era mesmo o atleta. Acontece que a família é de gente poderosa e aquilo que nós vínhamos escondendo até então ganhou a mídia instantaneamente.

— E onde eu entro nisso?

— Um de seus arquivos, mais precisamente o “IMG_20170906_191424439” pode ter o primeiro registro dos animais.

Pedi um minuto e corri ao computador. Era uma foto bonita publicada unicamente para ampliar o efeito artístico do trabalho. Ao contrário das demais que geravam algum dinheiro, essa não identificava ninguém claramente. O atleta acabava de entrar no enquadramento pela direita. A velocidade do obturador fazia com que seus movimentos se convertessem em um borrão bonito, manchas de azul, verde e amarelo. A foto se completava com um galho retorcido e muito verde, certa granulação, consequência do ISO alto que selecionei para o local.

— Não vejo nada.

— No canto inferior, à esquerda.

E lá estavam: escondidas sobre os galhos, duas figuras estranhas. Na imagem em baixa resolução que publiquei era impossível identificar qualquer detalhe. Por isso abri o arquivo original e pude observar dois seres de feição assustadora e demoníaca me encarando. Fiquei sem ar na hora.

— Sra. Beatriz: nós precisamos da imagem original.

— Essa que vocês viram é a original – menti.

— A senhora não tem nenhuma versão melhor?

— Não. Sou amadora, tiro fotos em arquivos menores porque meu cartão de memória não suportaria uma corrida inteira em alta definição.

— Ok, podemos ter acesso às demais fotos?

— Claro.

— Estamos seguindo para aí.

Rapidamente cuidei de salvar em um pendrive todas as imagens em alta definição e apagar o cartão de memória original. Enquanto esperava a polícia, liguei a TV e fui me informar melhor sobre o caso na internet. Várias notícias atribuíam as mortes a fontes misteriosas. Extra-terrestres, criaturas demoníacas, o anti-cristo. Isso explicou o nome das Associações místicas que me invadiram a caixa de e-mail. Os periódicos mais sérios focavam temas políticos e sociais, mais especificamente no porquê das forças policiais não terem proibido a corrida se já sabiam do acontecido. Uma revista semanal de futilidades se dedicava a explicar para a sociedade quem era a rica família Von Schonberg, vítima do último assassinato.

No próximo toque do telefone minha vida começou a mudar:

— Beatriz?

— Oi?

— Menina, é a Sara. Da Agência. Demorei horas para descobrir que você está morando com a Michelle. Por que isso?

— É a crise, Sara. Tudo que pude fazer.

— Pois é sobre isso que quero falar. Tô trabalhando pra Maio.

— Maio?

— Maio, a editora! Seguinte: se qualquer um te pedir novas fotos, por favor, não dê. Pagaremos alto pela exclusividade, ok? Quando vi seu nome nos créditos eu tive de correr muito a tempo de convencer a direção sobre o valor disso. Você aceita?

— O que exatamente?

— Todas as fotos com registros da mata. Exclusivas pra gente. Consegui aprovação prévia: R$1000,00 por cada uma.

Eu mal tive tempo de explorar os demais arquivos, não sabia o que encontraria. Sequer tinha certeza da existência de mais fotos. E já havia dito à polícia que não tinha nenhuma em alta-definição. Como poderia entregá-las à Sara?

Quando a polícia chegou os peritos avaliaram todos os computadores, até o da dona da casa, um baita constrangimento. Ele viu foto por foto na tela da câmera mesmo, depois fez uma cópia e foi embora com a equipe. A Sara me ligou assim que os policiais saíram.

— E aí?

— Sara, tenho outras aqui, mas é o seguinte: a polícia procurou e eu as escondi. Você não poderá revelar a origem.

— Ok, te resguardo no “sigilo da fonte”.

— Ah, e outra coisa: cinco pau por cada.

— Cinco!?

— Com exclusividade.

— Valem?

— Melhores do que a que você viu!

— Quando?

— Amanhã, te passo o endereço daqui. Não poderei rastrear seu pagamento. Traz o dinheiro vivo por favor.

— Quantas você tem?

— Duas mais. Bem nítidas.

Entendam: faltava pouco para que eu precisasse voltar pra casa dos meus pais. Seria o cúmulo da vergonha. Dez paus! Dez mil reais na minha mão. Não poderia recusar. Abri duas fotos com partes bem escuras na mata e montei olhos brilhantes e garras à mostra. Eles queriam feras? Pois as teriam.

A edição de domingo foi um sucesso. Todos os programas de TV repercutiram minha fotografia. Imprensa internacional, cadernos inteiros do jornal. A Sara virou uma espécie de empresária “do fotógrafo misterioso”. Só com os anúncios do site a revista recuperou rapidinho o dinheiro que me pagou. Aqueles moleques da Macedônia, os maiores empresários de fake news do planeta, fizeram uma montagem em cima da minha foto falsa e passaram a divulgar a montagem da montagem. Em pouco tempo milhares de pessoas atacaram a montagem deles (tosca e malfeita) e exibiam a veracidade da minha, ela que também nada tinha de real. Liguei para a Sara e disse que havia encontrado mais coisas nos arquivos. Mas que seria caro desta vez. Pedi R$50.000,00. Ela engasgou e me pediu um tempo. Dois dias depois chegou em casa com uma mala cheia de dinheiro. A polícia não sabia o que responder à população. Os opositores políticos do governo utilizaram o clima de desespero geral para propagar a ineficiência dos governantes e pedir sua cabeça. Ufólogos davam entrevistas na televisão, retrospectivas do chupa-cabras hispano-americano, edições sensacionalistas, teorias religiosas sobre os sinais do fim do mundo, uma nova tradução do Nostradamus.

Não ficarei me apegando ao fato do grampo ter sido legal ou ilegal. Deixo isso para o advogado que me recomendou passar uns dias no interior e não responder ninguém. Fato é que quando decidiram colocar escutas no telefone da Sara eles já sabiam que as últimas fotos eram falsas. Daí foi fácil chegar até mim. Mandaram o mesmo delegado que me interrogou no primeiro dia. Na manhã seguinte todos os canais mais prudentes aproveitaram para desmascarar a farsa em grande estilo. O castelo de cartas foi desmoronando na mesma velocidade e força com a qual se criou. Recebi ameaças e fui notificada de processos, minha vida virou um inferno.

É por isso que deixo esse registro. Para que vocês saibam o que me levou a decidir pela mentira. Mas sairei mais forte dessa crise inteira. Porque, ao contrário de todos os demais, eu ainda tenho a foto original. E numa definição que permite ampliações indubitáveis. Quando desmascararam as últimas fotos eu perdi toda a credibilidade, ainda que não tenham encontrado nenhuma prova de montagem na primeira delas. Claro! Ela era verdadeira. E quando olho para ela as vejo: duas criaturas que me gelam a alma e me induzem involuntariamente à posição fetal, último refúgio do maior dos medos. Mas não terei minha antiga vida de volta se não superar esse meu temor. Eu consegui uma vez. Conseguirei uma segunda. Saio de casa agora e retornarei na capa dos jornais, limpa, recuperada, forte e acima de todos que me ofenderam.

“Corpo encontrado na mata pode ser da fotógrafa” – Riodelândia, 04/06/2017 – Sara Oliveira e Reginaldo Silqueiros.

A polícia confirma que a principal suspeita sobre o corpo encontrado no último domingo é de que realmente pertença à fotógrafa Beatriz Rosa, desaparecida desde abril. A família da vítima foi chamada para a capital onde deverá colher material genético. Informações preliminares revelam que as marcas do cadáver possuem o mesmo padrão de dentição das Duas Bestas (ironicamente reveladas ao mundo pela própria Beatriz Rosa). O caso teve uma reviravolta nas últimas semanas. De “tema mais comentado do país” passou a “maior caso de charlatanice da imprensa nacional” quando peritos revelaram que a maior parte das fotos publicadas se tratavam de montagens. Uma entrevista coletiva foi agendada para esta tarde e a expectativa é de que finalmente apresentem dados conclusivos sobre o mistério.

(texto originalmente publicado em 05/10/2017 no blog Caneta, Lente e Pincel sobre imagem de Lucia Dias)

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Panaceia

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Fotografia: Magali Rios

Vaguei de madrugada torcendo para que não acabassem as pilhas da lanterna. Os carros passavam a cada duas horas. Em vez de dar sinal por carona ou aproveitar a iluminação dos faróis, eu me escondia na mata. Poderia ser a polícia ou qualquer outro buscando por mim. Avistei uma subida e, logo que a rodovia dobrou à direita, enxerguei um portão com cadeado. Fui rodeando o muro até que esse se transformasse em cerca, daí pulei. O aramado metálico existia mais para evitar a saída dos animais do que a entrada dos viajantes. Eu não levava bagagem, sendo fácil transpor qualquer barreira. A luz da lanterna enfraquecia e eu penetrava cada vez mais no terreno. Seria uma fazenda? Haveria gente morando? Cães? Pelo estado do caminho de pedras em que eu pisava, era certo: morava alguém ali. Circulei mais uns dez minutos e percebi um rio. Desliguei a lanterna, deixei as pupilas se acostumarem com o brilho da lua crescente, estendi a mão no regaço de água e sorvi aquele líquido gelado como fosse a panaceia desejada. Segui contra o fluxo da água e, minutos depois, a lanterna não era mais necessária. No alto de uma das margens enxerguei um palacete iluminado e robusto. As lâmpadas atraíam as mariposas hipnotizadas. Vinte metros adiante do beiral da varanda, a luz ainda tingia o negrume e fazia do caminho seguro para os demais e perigoso para mim. A barba protegia parte do meu rosto, o restante congelava no frio da noite. Fui margeando o halo das luzes da varanda, fugindo de seu toque e me deparei com uma mureta vazada que separava o jardim da baixada que dava para o rio gelado. Junto a ela um banco. Nele me sentei e o corpo, não resistindo às sete horas de caminhada, desabou em sono.

Passar os dias nessa casa de campo era o que me inspirava na infância. E talvez você se pergunte: para que uma menina carece de inspiração? Para criar histórias em sua própria cabeça. Contos como esse que você lê agora, páginas que ninguém nunca lerá. Aqui eu via as estrelas que supunha só existirem nessa parte do mundo. Quando voltava para São Paulo, elas desapareciam assim que entrávamos na Marginal do Tietê. A vida nestas terras tinha outro ritmo, ditado pelos ciclos das vacas e dos galos, da lua e dos mosquitos. Nesta mansão de onde escutava o rio correndo, eu compunha contos de terror. Neles, animais devoravam o intestino das crianças que não se comportavam. Os monstros cruzavam com os filhos maus e geravam bestas de cabeça humana e garras gigantes que voltavam para devorar os próprios pais. Quando briguei com meu velho fiquei vinte anos longe desta fazenda e agora que aqui retorno é como se nunca tivesse saído. As histórias brotaram em minha cabeça no exato momento em que dobrei a chave do cadeado. Mas o que tenho a confessar é bem mais grave do que um conto de terror infantil. Essa noite, deixei meu marido morrer. O Mauro não era mais quem eu conheci. Achei que viveríamos juntos para sempre, mas um tempo depois ele mudou. Um grito, um soco na mesa. Até que um dia o tapa foi em mim. Fui me acostumando. Isso durou até que o Mauro adoeceu. Perdeu os movimentos do lado direito do corpo – a mão boa para bater – e começou a degenerar. Eu precisava lhe dar alguns remédios, cuidar da sua alimentação, fazer fisioterapias diversas com seus músculos atrofiados e foi exatamente isso que deixei de lado desde que saímos da vista de todos na cidade e viemos morar na fazenda de meu pai. Nessa madrugada, o Mauro morreu. Dormi em outro quarto tomando o cuidado de cobrir o corpo com lençol. O pudor da atitude me soou estranho. Na cama de solteiro onde adormeci por toda infância tentei desligar a cabeça, mas ouvia sons que vinham de fora. Parecia gente caminhando, coisa impossível nessas terras desinteressantes. Era de fato a minha infância visitando: eu ouvia o fantasma caminhar pelas pedras, pela grama, quase pude ver uma sombra se projetando no gramado frontal. Às seis da manhã, exausta, apaguei.

Acordei tarde, já passava das dez e fui conferir o quarto onde Mauro dormiu sozinho. Senti algo entre o alívio e a pena ao levantar o lençol. Um cadáver. Essa figura natural, fisiológica, corriqueira, frente à qual aprendemos a ter pavor e ojeriza. Mas meu grande susto aconteceu quando abri as oito folhas de portas que davam para o jardim em frente à casa. Junto com o ar gelado que limpava meus pensamentos veio também a imagem de um homem de capuz sentado no banco em frente a mim. Não foram fantasmas que caminharam pela noite… A casa foi invadida. Eu precisava me proteger. Com a lâmina gigante em punho acordei-o a alguns passos de distância. Isso me permitiria correr se a coragem de matar não brotasse quando fosse a hora:

— Ooooo! Hey! Oooooooo.

Ele ergueu a cabeça assustado, um par de olhos verdes se acostumou com a luz, jogou os braços para trás, acima da cabeça, se exibindo inofensivo. Não respondeu a nenhuma de minhas perguntas:

— Quem é você? Como entrou aqui?

— Calma, senhora. Desculpa. Não quero levar nada. Apenas dormi no banco.

— Pois então vai embora agora, corre

— Tá bem, senhora. Por onde saio? Estava escuro quando entrei.

— Como você chegou aqui? De onde vem?

— Senhora, estou indo embora – disse, levantado-se – só me aponta para onde saio.

Fiz com o facão para a direita e ele imediatamente se dirigiu para lá. Fui seguindo a uns vinte metros para sentir-me mais segura, mas pensando comigo que nunca mais dormiria em paz naquele casarão. Eram urgentes as grades nas janelas.

— Vai reto, rapaz, não tem nada pra você aqui.

Acordei já com a luz do dia e me sentei buscando forças para seguir jornada. Enquanto apoiava a cabeça nas mãos, mirando os joelhos, ouvi o grito. A mulher magra segurava uma faca do tamanho do seu antebraço e apontava para mim. Rendido, comecei a abandonar a casa na qual quase congelei durante a noite. Tentei controlar a situação, pois percebi que ela estava mais nervosa do que eu. E, com uma arma na mão, eu preferi que a mulher se acalmasse.

— Escuta: sou um bom homem. Apenas não estou atravessando uma fase das melhores

— Vai saindo, rapaz.

—Sim, sim, é o que estou fazendo.

— E para de olhar para trás, bora fora, bora.

Há sempre algo na comunicação que foge ao controle verbal. Na realidade muitas vezes as palavras são o que menos importam. Enquanto dialogava com a mulher eu usava um tom sereno, caminhava com as mãos cruzadas atrás da nuca e sempre baixava os olhos para dizer algo. Para não parecer que os verbetes nada importavam, salvo algumas oralidades que dão um tom natural à fala, não cometi erros de português e, vez por outra, até soltava alguma palavra mais complexa, indicador inegável de minha origem. Isso lhe inspirou confiança e coragem para o pedido:

— Escuta, será que posso confiar mesmo em você?

— Claro, senhora. Em poucos minutos sumirei pelo portão e não deixarei rastro de minha passagem.

— Não, falo de outra coisa. Falo de confiar, confiar mesmo.

Nessa hora encarei-a e baixei os braços.

— De que a senhora está falando?

—Preciso de ajuda, tem um homem morto nesta casa.

— Opa, senhora, desculpe, mas já tenho problemas demais.

— Não, não, calma. Foi só algo que pensei aqui. Ele morreu de doença, morte natural, mas tenho receio de que pensem que eu apressei a morte.

— A senhora apressou?

— Não te interessa.

— E onde eu entro nisso?

— Me ajuda a levá-lo ao hospital? Até a cidade. Chegando lá diga que nos encontrou à beira do portão. Ele ainda vivo, balbuciando palavras confusas, e eu querendo ajuda, mas sem condições de dirigir. Você pegou o carro da família, me ajudou com o homem e nos conduziu até o pronto-socorro.

— Mas, senhora…

— Por favor…

E então vi o quão bonita era minha anfitriã involuntária. As rugas no canto dos olhos acentuavam um ar de erudição e certa amargura. O nariz levava uma marca que repartia o percurso do osso ao meio, rompendo seu desenho afilado. O pedido “por favor…” e sua pausa seguinte, sinal de fraqueza, me dobraram à causa.

Neste exato momento estou retirando o corpo da cama enquanto ela traz o carro para mais próximo da porta. Descubro que se chama Mauro e que é seu marido. Conduzo o carro em silêncio até o hospital. A enfermeira empurra o corpo na maca eu espero junto à porta. Quinze minutos depois ela retorna, desolação estampada. Apresso-me em contar a versão combinada:

— Eu vi aquela senhora amparando o homem na fazenda, ele parecia muito mal, não compreendia o que falava e ela gritava por ajuda quando…

— Shii, por favor, não é necessário. – disse a enfermeira colocando suavemente a ponta dos dedos em minha boca –  A Dona Marina merecia realmente repousar. Obrigado por trazê-los aqui.

Prefiro não insistir na mentira. Sumo tal qual apareci.

Venho para casa ansiosa por um chá que me cure o frio nos ossos. Erva cidreira é minha companheira, tomei dessa infusão por três homens mortos em tempos distintos. O primeiro foi meu pai. Brigados, morreu sem que pedíssemos perdão. Uma parte de mim não sente a falta: não éramos próximos quando vivos. Outra se arrepende exatamente por não entender como pude conflitar com quem sequer de mim se aproximou. O segundo homem foi o Mauro. Não esse que hoje conduzi ao hospital, mas aquele outro com quem me casei. Eu tinha acabado o chá de cidreira, fiquei com a caneca na mão sentindo o calor e aspirando o cheiro da folha, relaxando. Ele começou a gritar por um motivo tolo, havia se acidentado com as ferramentas de marcenaria e pediu a minha ajuda. Distraída, não me atentei. A vontade dele era me estapear, mas com a caneca frente à face o golpe foi mais certeiro. Tive de levar pontos e passei a conviver para sempre com um osso quebrado. Essa foi a noite de sua primeira morte. A segunda, natural e mais explícita, essa com a qual agora encerro a minha noite. Troco os lençóis, deito na cama e repouso o corpo que implora por um sono que a cabeça não concede. Sei que irei apagar. Sempre apaguei. Apago. Meu último pensamento me leva direto ao invasor de olhos verdes, mãos grandes e palavras gentis. Durmo e sonho que transamos. De nosso coito nascem pequenas feras, demônios de face humanóide e presas afiadas. Na primeira noite da vida de nossas crias elas nos violam, devoram nossas vísceras e nos purificam de todo o pecado.

(texto originalmente publicado em 30/08/2017 para o blog Caneta, Lente e Pincel sobre imagem de Magali Rios)

Na morada da noite

013

Fotografia: Ângela Márcia

 

Povo bruto! Arre! Nunca soube quando começou. Acho que ninguém por aqui se lembra. Quando me mudei vim fugindo e então me explicaram a regra.

— Na nossa cidade ninguém mora na mesma casa durante o dia e durante noite. Você tem de alugar dois imóveis, um para o sol e um para a lua.

Já vinha escapando, não quis contrariar. Cansei de perguntar o porquê.

— Já me contaram que foi um barão, duzentos anos atrás quem mandou. Era homem muito inteligente. Na falta de polícia ele quem mandava no vilarejo. Sabia que lugar sem gente é terra de perigo. Queria povo circulando. Daí estabeleceu: numa dada hora é uma mundarada imensa indo embora de casa e entrando em outra.

Outros preferem a versão mais repleta de sobrenatural:

—Eia, sôôô. Mexequisso não, arre. Tem coisa que num é bom mexê. No mei do dia os esprito marca as pessoa que vão desafurtuná. De noite volta pá buscá. Daí o povo se mexe que mexe que é mode os morto fica confuso.

A que eu mais gosto é a do Lourival, o dono da mercearia.

— Quem inventou essa porra foi o corno do Gumercindo. Tava cansado de levá gaia, mandou todo mundo trocá de casa pra atrapaiá o comedô da muié dele. Daí lascou, que a rapariga aprendeu a fuder de pé na hora da mudança, hahahaha.

Sei que nunca conheci quem mora durante o dia nesta casa em que durmo. Aqui eu só descanso e um outro vive a vida nas horas em que o dia me consome. O dono que nos aluga a ambos inventou uma engenhosidade bastante apropriada: diferenciou a propriedade dele das demais colocando uma escada no fundo do quintal. O anúncio do jornal dizia “troca sigilosa de moradores garantida, escada própria disponível”. Achei pitoresco. Todas as manhãs, exatamente às seis horas, já com os dentes escovados e com o queijo do café da manhã guardado na geladeira, subo os degraus, escalo o muro e ganho a cidade.

Há dois anos nada mudava nessa rotina, mas nos últimos meses meu colega de casa passou a cometer alguns lapsos. Tudo começou quando certo dia me apoiei na base de madeira da escada e senti. Era um aroma floral impregnado na umidade das fibras. Pousei nos primeiros degraus e aspirei. Aproximei o rosto do local onde as tábuas se pregavam e suguei forte. Sem sombra de dúvidas aquilo não era odor de madeira. Era perfume de gente.

Nos dias seguintes, a princípio de forma discreta, mas, depois, numa frequência que dificilmente seria obtida sem planejamento e convicção, os rastros do morador diurno passaram a se fazer mais sentidos. Logo após o perfume na escada, deparei-me com farelos. Minúsculos restos de pão torrado que ficaram nas frestas das tábuas da mesa. Era uma farinha pequena, não de quem come de boca cheia e deixa alguns pedaços cair, mas de quem rasga o pão com as mãos antes de leva-lo à boca. Farelos de mulher, como o perfume.

Quatro meses atrás, logo que cheguei em casa dei também por uma cor diferente no rejunte do piso do banheiro. Abaixei-me para olhar. Era uma gota de sangue. As cortinas que eu sempre deixava abertas para que a primeira luz da manhã invadisse a moradia passaram depois a serem fechadas, criando no chão da casa não mais aquela projeção de um quadrado intenso vindo da luz do poste da rua, mas uma suave iluminação filtrada pelas fibras do voal.

Dois dias depois achei sobre o meu (nosso) travesseiro um longo fio liso e preto, do comprimento do criado-mudo, elegantemente estendido, sem dar volta sobre si. Soube instantaneamente que aquilo não era um resquício. Era um presente.

Resolvi também deixar dos meus. O tapete da cozinha é de uma espuma fofa coberta com camurça. Quando se pisa, deixa-se a marca do sapato. Se você ficar mais de dois minutos na mesma posição cria-se um baixo relevo que tarda a desaparecer. Pousei sobre ele por meia hora, imóvel, pernas começando a fraquejar. Para proteger a coluna, mantida ereta a maior parte do tempo, me apoiava sobre a pia mas tinha a consciência de que isso reduziria o peso sobre a pegada e limitaria o alcance de minha estratégia, motivo pelo qual resistia bravamente à vontade de relaxar. Trinta minutos depois estava lá: bem definido, pesado, robusto – um pé de macho impresso no chão.

Ao chegar em casa de noite fui correndo vasculhar os cômodos. O tapete já havia voltado à sua forma original e toda a cozinha encontrava-se inalterada. No banheiro nada de novo, até mesmo a pia estava limpa e seca, sequer a água da última lavada de mãos podia me dar qualquer pista. O quarto: idêntico, assim como a sala e qualquer outra parte da casa. Tudo como antes, sem que um morador nada encontrasse do que o outro tivesse deixado. Pensei que não estivesse vendo bem e acendi todas as luzes antes de revirar a casa com uma lanterna. Uma mancha de suor, um aroma de colônia, um resto de urina no papel higiênico do lixo do banheiro: nada.

E assim foram os últimos meses de espera. Um sumiço. Nessas semanas descobri qual é o estofo do qual nascem as paixões: dúvida e ausência. Ontem paguei meu último aluguel e pedi ao proprietário que me autorizasse a permanecer aqui apenas mais uma noite. É, portanto, a derradeira vez na qual me apoio sobre esta escrivaninha. Ato arriscado e criminoso, afinal, sempre soube que tenho a letra pesada, das que deixam marcas profundas. Aqui redijo estas palavras que deixarei ao pé da escada quando me for. Atravessarei aquele muro pela última vez, pela parte de cima, que é por onde se atravessam muralhas que desejamos nunca mais nos conterem. Agora, já sem assunto, tinjo de caneta todas as sensações que me atingem. Sinto uma azia, forte demais, que me assusta com o temor do câncer de estômago. Chega-me também uma ponta de tristeza. Não tenho esperanças de que ela retornará e, ainda que o faça, não mais me encontrará para perceber sua presença e devolver-lhe aquilo que sou. A quem encontrar essa carta: isso é tudo que quero deixar – uma prova da incompletude nas possibilidades de sermos felizes. Felicidade é um sonho que acaba aqui, na borda inferior do papel.

 

B.C. Novembro – MMXVII

 

Bernardo caminhou até a escada e, antes de subir, afastou-a para esconder sob sua base a carta que acabara de proteger em um saco plástico à prova de umidade. Ao revolver a primeira camada de terra sua mão tocou em um envelope branco enterrado e com aspecto de recente.

 

(Texto originalmente publicado em 25/06/2017 sobre fotografia de Ângela Márcia)

Boca de Lobo

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Fotografia: Rudy Trindade

 

Cheguei em casa sem camisa.

Seria Botafogo e Flamengo no Engenhão, começou o maior quebra pau. Eu que não sou de briga saí correndo, me escondi atrás de um poste e fiquei só vigiando. De repente, vem a torcida do Botafogo dobrando a curva. E eu trajado no manto. Não pensei duas vezes: tirei, enrolei, joguei na boca de lobo pra ninguém achar e me misturei com eles. Como era o hino mesmo? “Sou tricolor de coração…”, não, cacete, esse é do Fluminense.

E voltei pra casa sem a camisa.

Daí a vó logo me perguntou:

─ Nego, cadê sua roupa?

─ Tá suja, vó. Tirei porque tava fedendo.

─ Então me dá logo pra lavar.

E eu não soube o que dizer. E ela ainda completou, acabando comigo:

─ Deu tanto trabalho da última vez. Coarei duas vezes pra tirar a mancha do suvaco. Usei uma bacia só pra ela. Porque sei que você não pode com mancha…

Então eu lembrei que a vó já fazia isso antes d’eu nascer.

Quando ela se mudou para cá não tinha a grade de vergalhão pra proteger da queda lá embaixo. A vó era linda e quando vinha para a laje esfregar roupa ficava um monte de marmanjo espiando de longe. O vô, mulato forte, baiano tranquilo, nem trinta anos completo, sabia que podia confiar na nega. Só gritava lá de dentro “entra que tá ventando, Palmira”. E a Palmira criou os oito filhos fazendo isso. Eram duzentas fraldas de uma vez, roupinha de bebê, roupinha de menino, roupinha que recebia de gente de fora. Depois começou a lavar roupa dos outros. E teve um tempo que ela ganhava mais dinheiro do que o vô. E ainda estendia a roupa da minha mãe e dos tios, deixava tudo branquinho.

A vó assistiu todos estes prédios sendo construídos. As crianças crescendo, o cabelo ficando mais ralo. Via aqui de cima, enquanto cuidava das cuecas sujas e do encardido dos uniformes. Tinha dia que ventava e a poeira das obras subia. E ela tinha de lavar tudo de novo. Duas bacias e um balde. Esfregava no primeiro, enxaguava no segundo e completava no terceiro.

A vó criou os oito meninos e mais os dezessete netinhos. Cuidava de criança do mesmo sangue dela e de mais um monte, filha de gente que trabalhava cedo e não tinha dinheiro pra creche.

Depois que o vô morreu ela ainda viu a mata diminuir e mais casinhas sendo construídas. Tudo sem nunca deixar de usar sabão em pedra na barra da calça jeans. Ela estava aqui quando ficou perigoso. Cinquenta anos de vida mas dizem que nem parecia. Braço forte da viúva espantava os engraçadinhos que pensavam em tomar o lugar do vô. Ela viu o neto entrar na faculdade e lavou a camisa que eu usei no primeiro emprego. Na borda da laje a vó plantou coentro e pimenta. Recolheu pipa caída e gritou forte quando um moleque soltou um rojão quase na cara dela.

Eu voltei do jogo sem camisa e a corda já estava cheia de roupinha de bebê. Dos filhos do Aldo, a terceira geração de macacãozinho que a dona Palmira ajudava a cuidar, sem nunca reclamar da mão cortada ou de dor na coluna.

A vó ensaboou todos os meus jeans, minhas camisas da escola, as meias brancas.

E eu peguei o manto lavado pela vó e joguei num bueiro no Engenho de Dentro.

Porra, que merda que eu fiz?

(texto originalmente publicado em 04/03/2017 no blog Caneta, Lente e Pincel sobre fotografia de Rudy Trindade)

Terra Batida

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Fotografia de Lúcia Dias

Mônica morreu num dia de julho.

 Era a primeira vez que eu voltava à casa e pedi para descer uns quilômetros atrás.

– Vai ficar olhando os moinhos de vento, Dom Quixote?

– Ou ao menos pedir para que olhem por mim.

Quem falava era minha atual mulher. Ela não entenderia. Eu mesmo não saberia bem explicar. Desci do carro e ela foi embora com a nossa filha. Vi quando a menina colocou a cabeça para fora:

– Tchau, papai!

Se eu pudesse, antes de vir aqui pararia no bar da Vila. Para a bebida me apagar um pouco. Mas estava longe.

Mônica morreu grávida. E dessa lembrança a cachaça não me livraria.

Eu calçava um tênis Nike de correr no asfalto, leve mas estranho à paisagem. Descalcei, amarrei os cadarços um ao outro e pendurei no ombro. Ventava muito e esse era todo o ruído que eu podia ouvir. Dois minutos depois o carro com as duas desapareceu e ninguém mais passaria por aquela estrada naquele dia, naquele ano, naquela vida. Queria ter ido ao bar da Vila. Deveria.

As pedras no chão machucavam meu pé. Dava para sentir o molhado da terra. Ficamos ali, irmanados, ela e eu, como muitos anos atrás fazíamos sempre. Aquela terra recebeu tudo que um dia me fora importante. Comeu as vísceras do primeiro bezerro que não deixei matarem e morreu de velhice, bebeu litros e litros de minha urina, tragou sem reclamar os jatos de esperma que ela dividia apenas com o tronco do umbuzeiro que me protegia dos olhos e do sol, engoliu o vômito de minha embriaguez quando aprendi a beber. Foi essa terra que comeu Seu Zózimo e minha mãe. Por isso desci antes e preferi conversar com minhas pegadas molhadas. Essa terra comeu Mônica, que era a minha mulher, e o filho que nunca foi nomeado. Minha sola grossa lixava a terra e eu me arrependia de não ter bebido.

Foi no bar da Vila que descobri uma de minhas verdades. Em casa perguntei à mãe:

– Eu sou filho do Seu Zózimo?

Meu pai – ou quem eu achava ser meu pai mas, naquele dia, descobri ser apenas o homem que me emprestara o sobrenome – já havia sumido na capital há anos. Ainda assim ela sentiu vergonha ao confirmar: “sim”. Eu saí correndo para além do curral, o dia estava seco e empoeirado, sujava a barra da calça, formava uma nuvem atrás de mim, eu engolia essa mesma terra onde hoje piso de modo que um dia ela já foi parte do meu pulmão, do meu estômago, do fio de caminho de lesma que ficou na minha cara quando a primeira lágrima escorreu.

Foi neste chão que me casei. Eu cursara toda a faculdade de engenharia no sul, mas voltara porque num desvio desta estrada morava a Mônica. Eu amava a Mônica desde que me dava por gente, desde que tinha lembrança. Por isso voltei. Porque ela havia passado seis anos me esperando. E isso era amor de verdade. Amor existe na espera. E eu não sabia o que era o amor sem a Mônica. Eu voltei para casar e logo em seguida tive de viajar novamente, últimas provas, entrega da monografia, meses no sul. Péssima escolha.

Eu também não sabia o que era alegria sem o bar. O bar da Vila. São poucas as propriedades por aqui. Quatro homens são donos de tudo o que a vista acolhe. Inclusive da vida dos peões. E peão fica xucro sem festa, sem mulher, sem beber. Por isso, uns oito quilômetros entrando pela estrada, abriram uma clareira e montaram a vila. Tinha fumo de corda, café fresco, farinha de trigo. Com o tempo começou a morar gente, umas duas famílias que viviam de abastecer a peãozada da região. Mas o que mais dava dinheiro era o bar. Era onde se agrupava todo mundo. Eu nunca soube porque gostava tanto daquilo. Talvez por um único motivo: lá não importava se eu era filho do homem que me dera o sobrenome que carrego – e de toda essa terra por onde agora caminho – ou do Seu Zózimo, cujo sangue realmente me irrigava.

O bar.

A Mônica.

Ela tinha um olho claro, como o da minha mulher de agora. Mas a natureza tinha sido tinhosa. Deu para Mônica uma boca gigantesca e uma pinta no lado direito. Boca de levantar desejo. E um fogo que correspondia. Mesmo grávida não descansava.

Nunca acharam o corpo dela. Tem quem pense que pode estar viva. Eu desconverso quando falam perto de mim, faço que não estou, mudo de prosa. O pessoal logo entende. Quando não entendem saio de perto e deixo falarem. Aqui viveu Mônica e meu filho. Se fosse menino iria se chamar Bento. Se menina, Beatriz. Foi tudo nessa terra aqui. Nunca acharam o corpo deles. Aqui viveu Mônica e um bebê que ela carregou na barriga por oito meses até o dia em que descobri, no bar, que eu não era o verdadeiro pai.

(texto originalmente publicado em 18/12/2016 no blog Caneta, Lente e Pincel sobre fotografia de Lúcia Dias)

Os buracos de Túlio

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ilustrações de Linda Valente

“Hoje eu mando a velha se foder, hoje eu mando”, pensou o Túlio segurando a mochila jeans. O Túlio trabalhava na prefeitura. Atendia telefone e agendava equipes para tapar buracos. Quando sobrava dinheiro, comprava uma Playboy. Tinha vinte e nove anos, mas nem parecia: mal passava da adolescência em seus hábitos. Pegava o 775V/10, Rio Pequeno – Santa Cruz, e sempre, quando a condução chacoalhava para dobrar na Corifeu, a velha entrava – e pedia o lugar no qual a bunda do Túlio tão bem tinha se encaixado.

Quando o coletivo apontou na vala rebaixada e dobrou para a direita ele a viu e mentalizou. “Vá se foder, vá se foder, vá se foder”.

─ Filhinho, eu posso…

─ Vá se foder!

­─ Ôôôôô, moleque, séloco ?!? Dá o lugar para a senhora!! – berrou o cobrador.

─ Dou o caralho!

─ Desce do ônibus, filho da puta! Agora!

O motorista deu uma freada brusca e todos foram jogados para frente, o Túlio se desequilibrou e foi de cara contra o ferro. Seus óculos quebraram na hora e o ferrinho da armação ainda rasgou seu rosto. Muito sangue, precisou de socorro, o ônibus teve de avançar pela portaria da USP e jogar o passageiro mal-educado na emergência do Hospital Universitário.

─ E é bem feito. Para aprender a respeitar os mais velhos.

O Túlio do sonho sentia-se agoniado por morar na pele do Túlio real

ilustrações de Linda Valente

O Túlio recebeu uns pontos e voltou para casa. Ligou no escritório e avisou que não poderia trabalhar. No final, saiu no lucro. Dormiria a tarde toda. Túlio gostava de dormir, mas gostava ainda mais de sonhar. Quando sonhava, ele podia ao menos uma vez no dia não carimbar protocolos nem ouvir xingamentos, não agir como robô, desligar-se dos aparelhos digitais. Dormindo ele não via a cara da Gisele, a colega super educada que ganhava todos os elogios enquanto ele só tomava bronca. Sonhando ele era jogador de futebol, astronauta, cantor de rock. Túlio gostava de sonhar, mas sempre acordava. Em seus sonhos ele não se encontrava com velhas, ônibus, chefes, boletos vencidos. Na terra em que habitava dormindo, seu pai ainda era vivo. E como seu pai era vivo eles seguiam no domingo de manhã para o Pacaembu, paravam no meio do caminho para comprar um pastel, um caldo de cana. Como seu pai era vivo, o caldo de cana vinha com limão espremido e ficava ainda mais gostoso. E o Marcelinho ainda jogava no Corinthians. Com o pai vivo o Túlio podia xingar o juiz de tudo quanto era nome. Xingava até a mãe do juiz. No meio do xingamento ele pensava “será que a mãe do juiz também é viva?”. Seu pai era vivo no sonho e o Timão sempre ganhava. Como seu pai era vivo e o Corinthians ganhava eles saiam para comemorar e se esqueciam da vida real. Essa onde seu pai era morto.

Nessa tarde, quando chegou do hospital, o Túlio teve um sonho estranho: ele estava trabalhando na prefeitura, atendendo telefone, agendando equipes para tapar buracos. Com sutis diferenças (exemplo: sobrava dinheiro no final do mês e ele comprava uma Playboy) tudo acontecia como na vida real e o Túlio do sonho sentia-se agoniado por morar na pele do Túlio real. No sonho ele tinha vinte e nove anos, morava com a mãe e pegava o 775V no Rio Pequeno, sentido Corifeu. Quando o ônibus virava à direita o Túlio do sonho já imaginava a velha chegando. Mas, para sua surpresa, quem entrou foi outra pessoa: seu pai. Em vez de pedir o lugar do Túlio ele simplesmente parou ao seu lado. Sorriu. Sem saber o que fazer com aquilo, Túlio o fitou embasbacado, boquiaberto. O pai riu em voz alta, felizes, ambos.

─ Você quer sentar, pai?

─ Tudo bem, Cabeção. Você deve estar cansado.

─ Tô nada, senta.

─ Fica tranquilo, Túlio.

─ O senhor tá indo pra onde?

─ Vou descer na Vital Brasil, antes da ponte.

─ Hahahahaha.

─ Por que ri?

─ Um morto… descendo na Vital.

Ambos riram.

O Túlio acordou do sonho sem entender bem. Era a primeira vez que o mundo de lá se parecia tanto com a vida real. Sentia-se feliz. Como se aquele cotidiano –  idêntico ao que de fato experimentava todos os dias – trouxesse algo de inédito. A cara ainda estava rasgada, com pontos e ele tinha de se deitar sem apoiar o rosto no travesseiro. “Tudo bem, Cabeção”. Seu pai lembrava do apelido.

O Túlio trabalhava na prefeitura. Atendia telefone e agendava equipes para tapar buracos. Quando sobrava dinheiro, comprava uma Playboy

ilustrações de Linda Valente

Túlio queria sonhar sempre, mas a licença médica era de apenas três dias, ao final dos quais voltou a trabalhar. A vergonha o impedia de pegar novamente o mesmo ônibus de onde fora expulso e despejado – sangrando – na porta de um pronto socorro. Por isso acordou quarenta minutos antes para pegar o 775V das 6h40 e não o das 7h20. Mas foi só embicar na Corifeu que ele já a viu. Não podia ser. A velha! Túlio fez cara de estrangeiro, mirou o vidro, o infinito. Ela se aproximou:

─ Menino! Fiquei tão preocupada contigo… esses pontos estão fechando? Não deixa infeccionar…

O Túlio pensou em responder mas preferiu fingir que desceria no próximo ponto.

E desceu.


(texto originalmente publicado na Confraria dos Trouxas em julho de 2016. Todas as ilustrações são de Linda Valente)

no fim

um dia falarei que te amo

 

sua mão será fina e lisa

quase não haverá mais palavras no mundo

 

daí falarei isso segurando sua mão

fina, lisa, magra

e você me responderá em silêncio

 

e tá bom