Os buracos de Túlio

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ilustrações de Linda Valente

“Hoje eu mando a velha se foder, hoje eu mando”, pensou o Túlio segurando a mochila jeans. O Túlio trabalhava na prefeitura. Atendia telefone e agendava equipes para tapar buracos. Quando sobrava dinheiro, comprava uma Playboy. Tinha vinte e nove anos, mas nem parecia: mal passava da adolescência em seus hábitos. Pegava o 775V/10, Rio Pequeno – Santa Cruz, e sempre, quando a condução chacoalhava para dobrar na Corifeu, a velha entrava – e pedia o lugar no qual a bunda do Túlio tão bem tinha se encaixado.

Quando o coletivo apontou na vala rebaixada e dobrou para a direita ele a viu e mentalizou. “Vá se foder, vá se foder, vá se foder”.

─ Filhinho, eu posso…

─ Vá se foder!

­─ Ôôôôô, moleque, séloco ?!? Dá o lugar para a senhora!! – berrou o cobrador.

─ Dou o caralho!

─ Desce do ônibus, filho da puta! Agora!

O motorista deu uma freada brusca e todos foram jogados para frente, o Túlio se desequilibrou e foi de cara contra o ferro. Seus óculos quebraram na hora e o ferrinho da armação ainda rasgou seu rosto. Muito sangue, precisou de socorro, o ônibus teve de avançar pela portaria da USP e jogar o passageiro mal-educado na emergência do Hospital Universitário.

─ E é bem feito. Para aprender a respeitar os mais velhos.

O Túlio do sonho sentia-se agoniado por morar na pele do Túlio real

ilustrações de Linda Valente

O Túlio recebeu uns pontos e voltou para casa. Ligou no escritório e avisou que não poderia trabalhar. No final, saiu no lucro. Dormiria a tarde toda. Túlio gostava de dormir, mas gostava ainda mais de sonhar. Quando sonhava, ele podia ao menos uma vez no dia não carimbar protocolos nem ouvir xingamentos, não agir como robô, desligar-se dos aparelhos digitais. Dormindo ele não via a cara da Gisele, a colega super educada que ganhava todos os elogios enquanto ele só tomava bronca. Sonhando ele era jogador de futebol, astronauta, cantor de rock. Túlio gostava de sonhar, mas sempre acordava. Em seus sonhos ele não se encontrava com velhas, ônibus, chefes, boletos vencidos. Na terra em que habitava dormindo, seu pai ainda era vivo. E como seu pai era vivo eles seguiam no domingo de manhã para o Pacaembu, paravam no meio do caminho para comprar um pastel, um caldo de cana. Como seu pai era vivo, o caldo de cana vinha com limão espremido e ficava ainda mais gostoso. E o Marcelinho ainda jogava no Corinthians. Com o pai vivo o Túlio podia xingar o juiz de tudo quanto era nome. Xingava até a mãe do juiz. No meio do xingamento ele pensava “será que a mãe do juiz também é viva?”. Seu pai era vivo no sonho e o Timão sempre ganhava. Como seu pai era vivo e o Corinthians ganhava eles saiam para comemorar e se esqueciam da vida real. Essa onde seu pai era morto.

Nessa tarde, quando chegou do hospital, o Túlio teve um sonho estranho: ele estava trabalhando na prefeitura, atendendo telefone, agendando equipes para tapar buracos. Com sutis diferenças (exemplo: sobrava dinheiro no final do mês e ele comprava uma Playboy) tudo acontecia como na vida real e o Túlio do sonho sentia-se agoniado por morar na pele do Túlio real. No sonho ele tinha vinte e nove anos, morava com a mãe e pegava o 775V no Rio Pequeno, sentido Corifeu. Quando o ônibus virava à direita o Túlio do sonho já imaginava a velha chegando. Mas, para sua surpresa, quem entrou foi outra pessoa: seu pai. Em vez de pedir o lugar do Túlio ele simplesmente parou ao seu lado. Sorriu. Sem saber o que fazer com aquilo, Túlio o fitou embasbacado, boquiaberto. O pai riu em voz alta, felizes, ambos.

─ Você quer sentar, pai?

─ Tudo bem, Cabeção. Você deve estar cansado.

─ Tô nada, senta.

─ Fica tranquilo, Túlio.

─ O senhor tá indo pra onde?

─ Vou descer na Vital Brasil, antes da ponte.

─ Hahahahaha.

─ Por que ri?

─ Um morto… descendo na Vital.

Ambos riram.

O Túlio acordou do sonho sem entender bem. Era a primeira vez que o mundo de lá se parecia tanto com a vida real. Sentia-se feliz. Como se aquele cotidiano –  idêntico ao que de fato experimentava todos os dias – trouxesse algo de inédito. A cara ainda estava rasgada, com pontos e ele tinha de se deitar sem apoiar o rosto no travesseiro. “Tudo bem, Cabeção”. Seu pai lembrava do apelido.

O Túlio trabalhava na prefeitura. Atendia telefone e agendava equipes para tapar buracos. Quando sobrava dinheiro, comprava uma Playboy

ilustrações de Linda Valente

Túlio queria sonhar sempre, mas a licença médica era de apenas três dias, ao final dos quais voltou a trabalhar. A vergonha o impedia de pegar novamente o mesmo ônibus de onde fora expulso e despejado – sangrando – na porta de um pronto socorro. Por isso acordou quarenta minutos antes para pegar o 775V das 6h40 e não o das 7h20. Mas foi só embicar na Corifeu que ele já a viu. Não podia ser. A velha! Túlio fez cara de estrangeiro, mirou o vidro, o infinito. Ela se aproximou:

─ Menino! Fiquei tão preocupada contigo… esses pontos estão fechando? Não deixa infeccionar…

O Túlio pensou em responder mas preferiu fingir que desceria no próximo ponto.

E desceu.


(texto originalmente publicado na Confraria dos Trouxas em julho de 2016. Todas as ilustrações são de Linda Valente)

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